Operação da PF contra jogo do bicho e caça-níqueis prende 35 pessoas

Entre presos há servidores públicos, delegados e PMs de 4 Estados e DF; foro especial impediu investigação de políticos

Vannildo Mendes, O Estado de S.Paulo

29 Fevereiro 2012 | 18h14

BRASÍLIA - A Polícia Federal prendeu nesta quarta-feira, 29, durante a Operação Monte Carlo, o bicheiro Carlos Augusto Ramos, o Carlinhos Cachoeira, e mais 34 envolvidos em um grande esquema de jogo do bicho e de exploração de máquinas caça-níqueis em quatro Estados e no Distrito Federal.

 

Entre os presos estão dois delegados da PF, seis delegados da Polícia Civil e cinco oficiais da Polícia Militar de Goiás, além de soldados, agentes e servidores públicos, um deles do Poder Judiciário.

Cachoeira foi pivô do primeiro escândalo do governo do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, causado com a divulgação de um vídeo em que o subchefe de Assuntos Parlamentares da Casa Civil, Waldomiro Diniz, negociava propina com o bicheiro em troca de apoio à aprovação de projetos de legalização de jogos.

 

Diniz era homem de confiança do ministro mais poderoso do governo, José Dirceu, caçado por envolvimento no escândalo do Mensalão. O assessor foi afastado e anos depois condenado por corrupção.

Maior bicheiro do Centro-Oeste, Cachoeira é também um notório financiador de campanhas. Há 17 anos ele age impune e expande os negócios na região. O bicheiro foi preso em sua casa, em Goiânia, por volta das 6 horas e não ofereceu resistência.

 

Seu advogado, Ricardo Sayeg, considerou a prisão "abusiva" e a operação "superdimensionada". Hoje mesmo ele entrou com pedido de habeas corpus. "O ato de que ele é acusado é mera contravenção, coisa para juizado de pequenas causas e sequer dá detenção", explicou.

Envolvimento político. Durante as investigações, a polícia e o Ministério Público captaram diálogos e flagraram contatos de Cachoeira e membros da organização com políticos. Mas como eles têm prerrogativa de foro especial, não foram investigados.

 

Um deles seria alto assessor do governo federal. "Não sabemos se há ou não crime nesses contatos, por isso enviamos os dados para a Procuradoria Geral da República decidir se manda prosseguir as investigações", disse o procurador da República Daniel Resende Salgado.

Conforme a investigação, policiais e militares recebiam propinas regulares - semanais e mensais - para dar proteção aos exploradores da jogatina, vazar informações sobre ações repressivas e despistar as fiscalizações.

 

O valor da propina variava conforme a patente do militar ou a função do policial. As maiores fatias iam para os delegados, que recebiam até R$ 4 mil mensais e oficiais. Um soldado ganhava entre R$ 180 e R$ 200 por dia de serviço para a organização. Já um sargento recebia diárias de R$ 300.

Durante a operação foram fechadas seis casas de jogatina, sendo quatro em Valparaíso (GO) e duas em Goiânia. A contabilidade da organização ainda será analisada, mas já se sabe que em apenas uma das casas fechadas foram movimentados R$ 3 milhões em seis meses.

 

Unidades franqueadas. Nos moldes de uma rede fast food, Cachoeira vendia "franquias" a empresários interessados no negócio. A polícia estima que mais de 200 casas com máquinas caça-níqueis funcionavam nos cinco estados.

Os principais crimes atribuídos ao grupo são corrupção ativa e passiva, contrabando, lavagem de dinheiro, evasão de divisas, peculato, violação de sigilo e formação de quadrilha. O delito mais brando é o de exploração de jogo de azar.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.