Operação no Alemão entre no 60º dia com novos problemas

Antropólogo afirma que polícia já trata mortes de moradores como ´casualidade´

Agencia Estado

02 Julho 2007 | 10h04

Uma solução que gera novos problemas. Essa é a avaliação de especialistas consultados pelo Estado sobre a ocupação policial no Complexo do Alemão, no Rio de Janeiro. Os estudiosos ouvidos foram unânimes em apontar as conseqüências negativas no cotidiano dos moradores, originadas pela própria Polícia, em uma operação como essa - e questionaram a eficácia, a longo prazo, de ações desse tipo no combate à violência e ao tráfico de drogas. As operações policiais no Complexo do Alemão completam neste domingo 61 dias. O cientista político especialista em segurança e professor da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj) Geraldo Tadeu Monteiro é taxativo ao expor sua avaliação sobre a ocupação policial naquela comunidade. "Essa operação, como está sendo conduzida, traz tantos efeitos negativos, que qualquer benefício (originado da ação policial) fica diluído", disse, considerando que as ações dos policiais geram uma série de graves conseqüências indiretas aos moradores do Alemão. "(Com essa operação), estamos caminhando não para um progresso e sim para uma deterioração da situação", disse. Monteiro questionou ainda o tempo em que uma operação como essa, de grande porte, pode se sustentar no Complexo. "O esforço de ocupar o Alemão mobilizou recursos que não podem se manter, em tempo contínuo. (Além do mais), a Polícia não consegue ocupar inteiramente o morro", disse. Na avaliação do especialista, falta um planejamento estratégico para as ações policiais, que não têm um plano eficaz para acabar de vez com as ações criminosas dos traficantes, e por isso recorrem a atos paliativos, e "ações espetaculares", como ocorreram no conjunto de favelas. "Estamos ficando reféns do imediatismo", disse. Embora tenha ressaltado não ter informações detalhadas sobre a operação no Complexo do Alemão, o ex-capitão do Batalhão de Operações Especiais (Bope), consultor de segurança, e autor do livro Elite da Tropa, Rodrigo Pimentel, sempre foi contrário a ações similares como a que ocorreu no conjunto de favelas. "Sou um crítico das operações em favelas que resultam em fechamento de escolas, e pânico", disse. Na avaliação do especialista, não compensa mobilizar 40 ou 50 homens para executarem operações em favelas, com o objetivo de apreender quantidades pequenas de pistolas e drogas. "A quantidade de tiros, o pânico que se leva aos moradores, a relação custo-benefício, não vale a pena", disse. Pimentel, entretanto, considerou que essa operação no conjunto de favelas parece ter levado a desarticulações de ações criminosas, no tráfico de drogas. Quando questionado o que achava das afirmações dos moradores do Complexo do Alemão, de que policiais também estariam cometendo crimes, durante as incursões naquela localidade, o especialista admitiu: "Se esses atos de violência aconteceram mesmo, não é nenhuma novidade." O antropólogo e professor da Universidade Federal Fluminense (UFF), Roberto Kant, é mais incisivo. Para ele, a Polícia e os órgãos de segurança já tratam atos de violência e de mortes de moradores como "inevitáveis" e "casualidades" de uma guerra. Na avaliação de Kant, a postura dessas instituições, que deveriam combater a criminalidade, é o mais grave de todos os problemas. "Eles (a Polícia) sabem que isso tudo acontece. Mas para eles, isso é um mal menor", disse, acrescentando que, para os órgãos de segurança, as vidas dos moradores das favelas "são descartáveis". "A repressão se torna mais importante do que a proteção. É uma coisa simplesmente apavorante", disse.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.