Operação prende PMs acusados de fazer segurança de bicheiro no Rio

Entre os 22 presos estão um tenente coronel e major da PM; Ministério Público e Polícia Militar desarticulam esquema de exploração de caça-níqueis

Marcelo Gomes, O Estado de S. Paulo

21 de agosto de 2013 | 10h47

RIO - Pelo menos 22 pessoas - entre elas um tenente-coronel e um major da Polícia Militar do Rio, além de praças da corporação, ex-PMs e agentes penitenciários - foram presas na quarta-feira, 21, durante a Operação Perigo Selvagem, que desbaratou uma quadrilha ligada à máfia dos caça-níqueis. O bando é chefiado pelo "capo" Fernando de Miranda Iggnácio, de 48 anos, que permanece foragido. Os PMs são acusados de integrar o esquema de segurança de Iggnácio, genro do falecido bicheiro Castor de Andrade.

A operação foi desencadeada pelo Ministério Público do Rio, em conjunto com a Polícia Militar, para cumprir 26 mandados de prisão preventiva e 76 de busca e apreensão. O bando é acusado dos crimes de formação de quadrilha armada e corrupção ativa e passiva. Foram apreendidos R$ 500 mil em espécie, cerca de 600 máquinas caça-níqueis, e 59 veículos, entre eles motos e caminhões, na sede da empresa Ivegê Indústria de Video Games Ltda., em Bangu, na zona oeste do Rio, que pertenceria a Iggnácio.

O tenente-coronel da PM Marcelo Bastos Leal, de 46 anos, foi preso acusado de chefiar a segurança do grupo. Ele é lotado na Diretoria Geral de Pessoal (DGP), conhecida como "geladeira" da PM. Segundo o MP, Leal usa seu cargo "para cooptar novos servidores públicos e influenciar a tomada de decisões de outros agentes policiais, sendo o coordenador do esquema de infiltração em diversas unidades (convencionais e especiais) militares". Durante as investigações, foi descoberto um suposto plano de Leal para matar o ex-comandante geral da PM, coronel Erir Costa Filho, devido ao aumento da repressão ao jogo ilegal durante sua gestão no 2º Comando de Policiamento de Área, responsável pela zona oeste da capital.

O capitão PM Walter Colchone Netto, de 31 anos, ex-integrante do Batalhão de Operações Especiais (Bope), também foi preso na operação. "Eles (Leal e Colchone) eram o braço armado da quadrilha. Faziam a segurança do transporte dos caça-níqueis, dos apostadores e resolviam problemas de pagamento. Em casos de dúvidas entre o que foi ganho na aposta e o que era pago pelo explorador, uma pessoa ia ao local resolver o conflito a mando de um dos dois", disse o promotor Décio Alonso, do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco) do MP-RJ.

A Ivegê é considerada pelos investigadores o "quartel-general" da quadrilha. A empresa funcionava como uma "agência bancária" do crime: no local havia vários guichês onde os arrecadadores do bando se identificavam por meio de leitura biométrica e entregavam o dinheiro retirado dos caça-níqueis.

A ação teve a participação de cerca de 400 agentes, entre homens da Polícia Militar e do MP. Contou com o apoio de cem viaturas e dois helicópteros. Uma das aeronaves foi usada no cumprimento do mandado de busca na residência de Fernando Iggnácio, num luxuoso edifício de frente para a Praia de São Conrado, na zona sul, um dos endereços mais caros do Rio. Para entrar no apartamento, os agentes precisaram utilizar picareta, alicates e marretas. O contraventor não estava no local.

Desde a morte do "capo" Castor de Andrade, em 1997, teve início uma guerra pelo controle dos pontos de exploração de caça-níqueis em diversos bairros da zona oeste. A disputa já causou dezenas de mortes ao longo dos anos. De um lado, Fernando Iggnácio, genro do contraventor, que está foragido. Do outro, Rogério Andrade, sobrinho de Castor, que atualmente está em liberdade provisória. Os dois já estiveram presos, mas saíram da cadeia mediante benefícios judiciais.

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