FABIO MOTTA/ESTADãO 10/04/2014
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Operações deixam 6 mortos e levam pânico a moradores de favelas do Rio

Atingido no abdome ao seguir para a escola, jovem de 14 anos passou por cirurgia e teve baço retirado; outras vítimas seriam traficantes

Roberta Pennafort, O Estado de S.Paulo

20 Junho 2018 | 15h10
Atualizado 20 Junho 2018 | 22h19

RIO - Pelo menos seis pessoas morreram e um adolescente ficou gravemente ferido no Complexo da Maré, zona norte, em uma operação da Polícia Civil com o apoio das Forças Armadas realizada nesta quarta-feira, 20. Moradores relatam que policiais atiraram de dentro de helicópteros, o que levou pânico à comunidade. 

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A Polícia Civil confirmou a morte de seis pessoas, supostamente traficantes. De acordo com nota oficial, os policiais foram recebidos a tiros ao entrarem em duas casas e revidaram. Os homens foram socorridos e levados ao hospital, mas não resistiram aos ferimentos. Nenhum policial ficou ferido. 

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Jonas (nome fictício), de 14 anos, foi atingido no abdome, quando estava a caminho da escola. Ele passou por uma cirurgia e teve o baço removido. Seu estado de saúde é grave, e ele deve passar por uma nova intervenção amanhã, no Hospital Getúlio Vargas. Na porta do hospital, sua mãe, Bruna, segurava a camiseta do uniforme ainda ensanguentada. 

No Centro Integrado de Educação Pública (Ciep) Operário Vicente Mariano, onde Jonas estuda, cerca de 500 crianças e adolescentes estavam em sala de aula quando o tiroteio começou. As aulas não foram suspensas, mas foi adotado o procedimento de esvaziar o pátio e levar todos os alunos para a outra extremidade do prédio, do lado oposto ao conflito. O Ciep foi uma das escolas da Maré que passou pelo treinamento preconizado pela Cruz Vermelha Internacional para áreas de conflito.

Logo que a operação começou, moradores começaram a postar nas redes sociais. “Cuidado especial pra quem mora em casa de telha. Muitos tiros de cima”, escreveu uma pessoa. “Olha aí o blindado aéreo dando tiro indiscriminadamente em mais uma operação irresponsável dessa intervenção”, dizia outra mensagem. 

Integrantes do Projeto Redes da Maré, que funciona na comunidade, confirmaram que os policiais atiraram de dentro dos helicópteros - uma mudança brusca de padrão, já que as aeronaves sempre foram usadas para patrulha. Nem a Polícia Civil nem o Gabinete da Intervenção Federal se pronunciaram sobre o uso dos helicópteros.

“Essa é a grande questão que já tinha acontecido numa operação na semana passada, usar o helicóptero como base de tiro”, afirmou Eliana Sousa Silva, diretora do Redes da Maré. “A finalidade do helicóptero é patrulhar, orientar as equipes em solo, mas jamais deveria ser usado como base de tiro. Na semana passada contamos mais de 50 marcas de disparos. E hoje repetiram isso. A Maré é uma área muito densa, são 16 favelas, 140 mil pessoas, em um raio de 4,5 quilômetros. Os moradores estão extremamente indignados, em pânico.”

A socióloga Silvia Ramos, do Observatório da Intervenção, que monitora as ações, também questionou o uso dos helicópteros como base de tiro. “Até nas guerras é inaceitável colocar em risco a vida de civis. Como os generais da intervenção permitem o caveirão voador atirando sobre a Maré?”

Outra vítima

Segundo o Redes da Maré, um outro adolescente, de 17 anos, teria sido atingido por estilhaços nas imediações do Ciep e atendido na Unidade de Pronto Atendimento (UPA) da Vila do João. Não há informações sobre sua saúde.

Em nota, a Polícia Civil confirmou apenas a morte de seis supostos traficantes. A operação tinha como objetivo cumprir 23 mandados de prisão decorrentes de investigações da Delegacia de Combate às Drogas e da 39.ª DP. Ainda de acordo com a polícia, os agentes apreenderam com os supostos traficantes quatro fuzis, oito carregadores, duas pistolas e quatro granadas. Não há informações sobre presos.

Moradores registram tiroteio no Morro Pavão-Pavãozinho. Crédito: @RJ_OTT. pic.twitter.com/SrrCwRZRd9

 

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