Operário do Metrô morreu soterrado depois de inspeção

Na região da futura estação Oscar Freire, os comerciantes e moradores estão bastante esperançosos com os benefícios que o Metrô vai trazer a partir de 2012, ano de entrega da segunda fase da construção. O perigo e risco de vida por ali estão a 25 metros de profundidade, onde o operário José Alves de Souza acabou morrendo soterrado, no dia 3 de outubro de 2006. Foi a única fatalidade registrada em todas as 25 frentes de trabalho desde que as obras começaram, em 2004.Um dia depois do soterramento e da morte de Souza, a Companhia do Metropolitano de São Paulo e o Consórcio Via Amarela se recusaram a falar sobre os detalhes do acidente antes dos laudos oficiais e não foi permitida a entrada desta reportagem no canteiro da obra. Em função disso, foi preciso entrevistar um operário sob condições de anonimato para saber o que realmente tinha acontecido. Hoje, quase quatro meses depois, as investigações do Metrô contradizem muitas informações do depoimento do colega que tentou socorrer Souza.De acordo com ele, eram 17h08 quando o barranco de cerca de 200 quilos de terra, desabou sobre a cabeça de Souza e pressionou contra a parede do túnel. Havia quatro pessoas no local e todas tentaram ajudar. Mas como ele já tinha presenciado outros desastres e estava mais tranqüilo, liderou a tentativa de resgate orientando os colegas. Com um pequeno martelo, foi quebrando a terra aos poucos. Depois de 15 minutos de esforços frustrados, verificou novamente o pulso de Souza, mas o corpo já não dava mais sinais de vida. As marcas de sangue ficaram espalhadas no local. "Deu traumatismo craniano, começou a sangrar pelo ouvido, pelo nariz. E teve também parada respiratória. O capacete eu vi, abriu no meio. Muito peso. Pressionou muito essa parte aqui do rosto dele", relata, apontando para um dos lados da face.Quando percebeu que não havia mais possibilidade de salvar o colega, ele decidiu buscar uma maca para levar o corpo até a superfície. Depois da tristeza da morte, veio a indignação com a demora pelo resgate especializado. "Alguém subiu antes para avisar, mas eu estou falando da minha parte. Já era 17h35 e eu fui o primeiro a ligar para os bombeiros. Ninguém tinha feito uma ligação sequer para o resgate. Dei meus dados, telefone, contei o que aconteceu. O corpo dele ficou ali, a céu aberto. Depois removeram para a enfermaria até que chegaram as três viaturas de bombeiros. Isso já era umas 17h45. O acidente mesmo foi 17h08, 17h10, no máximo".Para boa parte do grupo, o descaso foi revoltante:"Diziam que deixaram um morrer para depois tomar uma providência. É uma coisa que estava prevista. Não é um engenheiro que vai lá, olha e vai embora. É o cara que está direto debaixo da terra, ele é que está trabalhando e está vendo. O cara tem que ficar mais lá (no túnel), acompanhando, do que aqui em cima, tomando cafezinho, sentado em cadeira aí". NegligênciaSegundo o operário, uma inspeção foi realizada um dia antes da fatalidade, a terra estava úmida e um barranco menor já havia desmoronado em cima de um outro colega. A máquina acabou acertando o pé e ele foi parar na enfermaria, de maca. Chegou a ficar um pouco tonto, mas não foi nada mais grave. Porém a forma como o consórcio tratou a questão preocupou a todos: "Veio o geólogo olhar a terra, mas mandou continuar trabalhando. No meu caso era para parar aquilo ali imediatamente, entendeu? Porque tem toda a equipe aí, tem encarregado, tem engenheiro, tem geólogo, tem segurança, tem tudo. Na hora que acontece é fácil abrir a boca e falar que "foi uma fatalidade". A coisa mais fácil que tem, igual eu, que tô falando agora."Diário Diário de Segurança - DDSPara evitar acidentes, os funcionários são orientados a utilizar os Equipamentos de Proteção Individual (EPI). São óculos, luvas, capacetes, máscaras, botas, tapões de ouvido específicos. Na entrada de todos os turnos, também acontece uma reunião coletiva para falar sobre questões de segurança, juntamente com uma pequena oração. É o Diário Diário de Segurança, mais conhecido como DDS. Contudo, depois da fatalidade, nada parece superar a dor e o medo de novos acidentes no local: "No DDS, é sempre a mesma coisa: ´Ter cuidado, ter cuidado, ter cuidado´. Eu acho muita teoria, muito blá-blá-blá, ´pai nosso que está no céu´. E isso aí não funciona, não. Tem que treinar bem a pessoa. Eles exigem o equipamento mais para falar que está fazendo o serviço. Põe luva, põe capacete, põe protetor, põe máscara. Mas eu acho que não é eficiente nesse tipo de trabalho. Todo o cuidado é pouco, a precaução tem ser em primeiro lugar. É vida, é um tipo de serviço muito complicado, delicado demais" - conclui o operário.O traslado do corpo de Souza para a cidade de Paulo Afonso, na Bahia, onde foi enterrado, ficou por conta do consórcio, que também se comprometeu em indenizar a família.Procurada pela reportagem, a Companhia do Metropolitano negou que tenha havido a inspeção do geólogo um dia antes da morte de Souza, desconhece a quantidade de terra que soterrou o operário, disse que houve pronto atendimento do Corpo de Bombeiros, que há treinamentos específicos para cada função nas frentes de trabalho e que o procedimento é suficiente, junto com o DDS.

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