Oposição critica ato de Kassab e aliados amenizam irritação

O episódio entre o prefeito Gilberto Kassab (PFL) e autônomo Kaiser Paiva da Silva, de 47 anos, ganhou contornos políticos. Aliados do prefeito na Câmara Municipal tentavam qualificar o fato como ?passageiro? enquanto oposicionistas procuravam aumentar o desgaste político de Kassab, que é desconhecido por boa parte dos paulistanos. Poucas horas depois do episódio - o vídeo da reportagem do jornal SPTV da Rede Globo já pode ser visto no YouTube -, na manhã de segunda-feira, aliados e adversários de Kassab movimentavam os corredores da Câmara. O líder da bancada do PFL, Domingos Dissei, encontrou o bordão ?passageiro? para explicar a atitude do prefeito. ?Foi a mesma situação enfrentada pelo Covas (governador Mário Covas) com os professores e da Marta (ex-prefeita Marta Suplicy) com a dentista após uma enchente na zona leste. O Executivo sofre muita pressão e a reação serviu para comprovar que o prefeito leva a sério a saúde.? A bancada petista, principal partido de oposição a Kassab na Câmara, emitiu nota de repúdio ao ato de Kassab, oferecendo respaldo jurídico caso ele seja processado pelo prefeito. ?Seria um ato covarde fazer isso com o cidadão?, disse o vereador Paulo Fiorilo (PT), presidente municipal do partido. Os vereadores petistas alegaram na nota que ?o administrador público deve ter entre seus atributos a capacidade de conviver com a adversidade, respeitando quem discorda de seus idéias ou atitudes? e que ?em nenhum momento o chefe do Executivo foi ofendido ou desrespeitado pelo munícipe?. Processo Ainda na terça-feira, os petistas procuraram Kaiser para oferecer ajuda caso a Prefeitura concretize a intenção de processá-lo criminalmente. ?Ele está bastante assustado e com medo de tudo o que aconteceu. É uma covardia fazer isso com um cidadão?, rebateu Fiorilo. O PT utilizará nesta terça-feira a tribuna da Câmara dos Vereadores para tecer críticas ao prefeito. É estudada a possibilidade de levar Kaiser à Casa. O prefeito Gilberto Kassab pode ser processado pelo autônomo Kaiser Paiva ou pelo Ministério Público - nesse caso, se algum cidadão entrar com representação, por injúria e abuso de autoridade. ?Estamos numa democracia, qualquer um tem o direito de protestar. Ele não pode expulsar o cidadão assim?, afirmou o criminalista José Luís de Oliveira Lima. O promotor Daniel Serra Azul Guimarães, diretor da organização MP Democrático, explicou que, em um eventual processo, não cabe a Kassab nem sequer alegar que reagiu à ofensa de Kaiser. ?Isso só pode ser aplicado no caso de o cidadão ter ofendido a honra do prefeito. Não foi o caso. O que me pareceu foi uma crítica e que a reação foi desproporcional.? Para o cientista político Marco Antônio Teixeira, da FGV, o episódio prejudicou a imagem de Kassab, ao se somar à demonstração de ira do prefeito na inauguração da Praça da Sé, no dia 25, e à gafe divulgada no YouTube sobre o pânico num motel com a tragédia no metrô, dia 12. ?Além de pouco conhecido, ele é lembrado por fatos negativos como esses e o aumento do IPTU.? O cientista político Fernando Abrucio também vê prejuízo para Kassab. ?O ex-governador Mário Covas esbravejava contra uma multidão e isso era lido como coragem, era um contra milhares. Um contra um, sendo o prefeito, pode soar como covardia e arrogância.? Protesto e irritação ?Sai, sai daqui! Vagabundo! Vagabundo!? Foi dessa forma, causando perplexidade entre quem presenciou a cena, que o prefeito Kassab se dirigiu a Kaiser Paiva, que protestava na porta da unidade de Assistência Médica Ambulatorial (AMA) Pereira Barreto, no Jardim São José, zona norte. Por volta das 11 horas, na inauguração da AMA, o prefeito se irritou com o autônomo. Correu atrás de Kaiser e o expulsou aos berros e empurrões. Kaiser estava com o filho, de 7 anos. Ao perceber a reação de Kassab, assessores e funcionários da unidade pediram calma e tentaram evitar o pior. Mas o prefeito só se acalmou depois de ir até a calçada na frente da AMA, ainda berrando. Kaiser, assustado, já estava do outro lado da Rua D. Manuel D?Elboux. Kaiser, aos gritos, protestava contra a Lei Cidade Limpa. Dono de uma pequena fábrica de placas e cartazes, ele se dizia prejudicado. ?Proibiram a comunicação visual. Essa é a verdade. Não entra serviço.? Perto dele, havia três guardas civis metropolitanos responsáveis pela segurança do prefeito, mas nenhum o abordou. Kassab estava nos fundos do posto de saúde e, dois minutos após o início do protesto, foi informado sobre o que estava ocorrendo. Contrariando seu estilo discreto, ele partiu para cima do manifestante e o empurrou no instante em que Kaiser falava da situação de um carroceiro que estava ao seu lado, Valdemar Alves de Souza, de 59 anos. Souza entrou na UBS para reclamar que não conseguia retirar sucata de um ferro-velho na região. Justificativa Logo após o episódio, ainda visivelmente alterado, o prefeito tentou se justificar: ?Um cidadão vir dentro de uma unidade de saúde para fazer uma manifestação é uma agressão à cidade. Por isso, ele foi colocado para fora, sim, e farei isso quantas vezes for necessário dentro de uma unidade de saúde.? Ele negou que tenha agredido Kaiser. ?O que eu pedi é que ele se retirasse.? ?O Kassab é uma pessoa muito correta e educada. Não sei de fato o que aconteceu?, disse ontem o governador José Serra (PSDB), na inauguração de uma Fatec em Santo André (ABC). ?Todo mundo brincava com ele pelo jeito dócil, recatado, sério. Nunca levantava a voz. Para tirá-lo do sério, alguém deve ter falado bobagem?, comentou o vice-governador, Alberto Goldman.

Agencia Estado,

06 Fevereiro 2007 | 09h39

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