Oposição estuda criar CPI para investigar repasses para ONGs

Produziu uma reação forte a revelação de que o ex-assessor de análise de riscos da campanha de Lula, Jorge Lorenzetti, acusado de estar envolvido na compra do dossiê para incriminar tucanos, recebeu R$ 18,5 milhões dos cofres federais desde o início do governo Lula por intermédio de uma organização não-governamental da qual é fundador e colaborador, a Unitrabalho. O episódio serviu para a oposição lançar no Congresso a idéia de uma CPI para investigar todos os repasses de verbas federais para ONGs ligadas a petistas, nesta quarta-feira, 20.Favorecida por convênios com diversos órgãos da administração federal, a Unitrabalho (Fundação Interuniversitária de Estudo e Pesquisa sobre o Trabalho) é uma das dez ONGs que mais receberam dinheiro federal nos últimos três anos e nove meses, de acordo com levantamento do site Contas Abertas. Só na última quinta-feira, por exemplo, a entidade de Lorenzetti, também conhecida por ser o churrasqueiro preferido de Lula, recebeu R$ 4,1 milhões do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE) e da Financiadora de Estudos e Projetos (Finep).Um dia depois, um dos colaboradores de Lorenzeti no PT, o advogado Gedimar Pereira Passos, foi preso em São Paulo, junto com Valdebran Padilha, carregando R$ 1,7 milhão em notas de real e dólar. O dinheiro serviria para negociar com o empresário Luiz Antônio Vedoin, da máfia dos sanguessugas, a apresentação de denúncias contra os candidatos do PSDB.Segundo a pesquisa feita pelo site Contas Abertas, os R$ 18,5 milhões já recebidos pela Unitrabalho entre 2003 e 2006 é 22 vezes maior do que toda a quantia embolsada pela mesma entidade entre 1996 e o final do governo Fernando Henrique Cardoso. No ano passado, por exemplo, o montante transferido para a fundação chegou a R$ 7,2 milhões.Apenas um convênio celebrado entre a Unitrabalho e o Ministério do Trabalho, em 2005, para a avaliação do Plano Nacional de Qualificação (PNQ), custou R$ 6,9 milhões aos cofres públicos. A Finep, órgão ligado ao Ministério da Ciência e Tecnologia, contratou a entidade como prestadora de serviços relacionados ao desenvolvimento e à ampliação de incubadoras e projetos de integração e inclusão social. Do Ministério da Educação (MEC), a Unitrabalho obteve R$ 2 milhões para o "desenvolvimento de ações que promovam a qualidade de ensino de jovens e adultos". "São entidades que recebem dinheiro do povo brasileiro e estão gastando em que", questionou o senador Heráclito Torres (PFL-PI), ao defender a criação de uma CPI das ONGs.Os recursos repassados pelo governo federal a ONGs somam mais de R$ 1 bilhão no governo Lula. As entidades se credenciam a vários tipos de convênios com os órgãos federais. As áreas mais visadas pelos petistas são a reforma agrária, os cursos de formação de mão-de-obra, onde os sindicalistas têm experiência, e os novos programas de ciência e tecnologia, também visados pelos sanguessugas, que fornecia veículos adaptados. As centrais sindicais também se aproveitam dos convênios para embolsar recursos federais. A Força Sindical, por exemplo, recebeu R$ 36,6 milhões entre 2003 e 2005, enquanto a CUT foi favorecida com R$ 30,2 milhões, sem falar nos seus sindicatos individualmente.Para criar a CPI das ONGs, Heráclito precisa do apoio de, no mínimo, 27 colegas. Segundo ele, a comissão - com 11 titulares e 7 suplentes - terá 60 dias para apurar os "fortes indícios" de que houve desvio de dinheiro público neste episódio envolvendo assessores próximos do presidente e em outros, como na manutenção do Movimento de Libertação dos Sem-Terra (MLST), que invadiu as dependências da Câmara em junho passado. Segundo ele, os invasores foram financiados pela Associação Nacional de Apoio à Reforma Agrária, que recebe repasses do governo federal.

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