Oposição evita fazer críticas ao Bolsa-Família

Programa, que atinge 12,4 milhões de famílias, será expandido a outras 600 mil pelo governo[br]Lula já em 2010

Adriana Carranca, O Estado de S.Paulo

16 de abril de 2010 | 00h00

Em ano de eleições presidenciais, a grande bandeira do governo Lula na área social, o Bolsa-Família, se tornou uma política intocável. José Serra (PSDB), principal adversário da pré-candidata Dilma Rousseff (PT) tem evitado fazer críticas ao programa, que ele promete não apenas manter, como reforçar.

O tucano tem declarado repetidamente que, se eleito, abraçará a política de transferência de renda do governo petista. "Eu vou manter e reforçar o Bolsa-Família porque é uma coisa que funcionou", disse, ontem, em entrevista à Rádio Bandeirantes.

O governo Lula, por sua vez, incluirá mais 600 mil famílias, ou 2,4 milhões de brasileiros, como beneficiários em 2010. A orientação para o cadastramento será passada aos municípios pelo Ministério do Desenvolvimento Social na segunda-feira.

Prevendo possíveis críticas da oposição, que no passado classificara a política petista de "assistencialismo", Dilma pretendia adotar na campanha o discurso do desenvolvimento. Mas, ao contrário de críticas, foi o discurso da continuidade que os tucanos abraçaram desde o início - nas eleições de 2006, a coordenação de campanha de Geraldo Alckmin reconheceu que o candidato errou ao declarar "tarde demais" que manteria o programa.

"Me deixa falar sobre um ponto que acho importante. Fui candidato em São Paulo, em 2004, quando a Marta Suplicy (PT) era prefeita", fez questão de colocar Serra, ontem, sinalizando estratégia da oposição. "Ela criou o bilhete único e na campanha dizia "se o Serra for eleito ele acaba". O que eu fiz? Na prefeitura, ampliamos o bilhete para o metrô. Mantivemos o nome dos CEUs, que a Marta criou, e fizemos mais. Se merecer a confiança do povo, vou manter e reforçar o Bolsa-Família", declarou.

O PT também mudou de estratégia. No discurso que os governistas prepararam para o congresso petista, em fevereiro, quando confirmada à sucessão de Lula, Dilma prometia um plano de aceleramento econômico para gerar empregos e substituir, gradualmente, as políticas de transferência de renda, como o Bolsa-Família. O presidente Lula interveio. E Dilma mudou o discurso, prometendo aprimorar o programa. E na terça-feira em Fortaleza, a pré-candidata já se referia ao Bolsa-Família como o "melhor programa de transferência de renda do mundo".

Para a pesquisadora do Instituto Universitário de Pesquisa do Rio de Janeiro Julia Sant"anna, que prepara tese de doutorado em políticas de transferência de renda comparadas na América Latina, os candidatos se deram conta de que a ampliação do programa tem, além dos objetivos sociais, um impacto no eleitorado. "Mas, isso não quer dizer que seja populista ou eleitoreiro", ressalva. "A ampliação fez com que ele se institucionalizasse, o que força essa continuidade. E isso é bom". A avaliação do impacto e a cobrança das condicionalidades estão entre as deficiências apontadas por ela. "Mas, no longo prazo você pode aprimorar a gestão e os resultados que se quer. Então, acho bom que os candidatos estejam falando em manter o programa. Até porque PT e PSDB compartilham essa paternidade. Os dois são pai e mãe do Bolsa-Família", diz.

PARA LEMBRAR

O DNA da transferência de renda

O embrião dos programas de transferência de renda no Brasil nasceu em 1995, quando o então prefeito de Campinas (SP), José Roberto Magalhães (PSDB), fez o primeiro pagamento a uma família pobre. No mesmo ano, Cristóvão Buarque (PDT) implanta programa similar no Distrito Federal e Antonio Palocci (PT), em Ribeirão Preto (SP). Em 1996, o então presidente Fernando Henrique Cardoso (PSDB) lança o Programa de Erradicação do Trabalho Infantil, sob a condição de que as famílias colocassem os filhos na escola. No ano seguinte, FHC sanciona a lei que cria o Programa Nacional de Renda Mínima e, em 2001, lança o Bolsa Escola. No primeiro ano da gestão Lula, em 2003, o governo federal cria Ministério Extraordinário da Segurança Alimentar e lança o Fome Zero. Em 2004, surge o Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome e o Bolsa-Família, que unifica todos os programas federais de transferência de renda. Este ano, programa deve beneficiar 13 milhões de famílias.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.