Oposição evita recurso contra Dilma para também usar TV em favor de Serra

Sucessão. Depois de classificar programa petista como um 'grave desrespeito à Lei Eleitoral', PSDB e DEM baixam o tom e adotam um discurso mais ameno, defendendo que a campanha entrou em nova fase e que agora petista não faz mais parte do governo

Ana Paula Scinocca e Vera Rosa, O Estado de S.Paulo

15 de maio de 2010 | 00h00

A conduta do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e da candidata governista, Dilma Rousseff (PT), na pré-campanha abreviou o calendário eleitoral. Um dia após o PT ter apresentado programa em cadeia de rádio e TV, considerado pela oposição mais um episódio de "grave desrespeito à Lei Eleitoral", o PSDB tinha dúvidas se recorreria novamente ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE).

Já o aliado DEM decidiu não ingressar com recurso junto à Justiça Eleitoral, considerando que a campanha entrou em nova fase. Pela legislação, a propaganda eleitoral em rádio e TV só é autorizada a partir de 17 de agosto.

Anteontem, por decisão do TSE - que ocorreu após exibição da propaganda do PT na TV, a legenda perdeu direito de transmitir o programa partidário no primeiro semestre de 2011 e terá de pagar multa de R$ 20 mil. Dilma recebeu multa de R$ 5 mil.

As punições por campanha antecipada se referem ao programa que foi ao ar em dezembro, e não ao de quinta-feira, quando o presidente Luiz Inácio Lula da Silva comparou a trajetória de Dilma à do líder sul-africano Nelson Mandela, que lutou contra o apartheid. A oposição tentou impedir a veiculação da propaganda, em rede nacional, mas o pedido não foi julgado a tempo pelo TSE.

Nova fase. O presidente do DEM, deputado Rodrigo Maia (RJ), disse não ser o caso de recorrer. "O DEM não vai entrar na Justiça Eleitoral. Estamos em outro momento da campanha. É diferente da ocasião anterior quando a Dilma era ministra", afirmou.

A negativa do DEM e a dúvida do PSDB foram encaradas, nos bastidores, como sinal de que os dois partidos poderão usar em seus programas partidário a estratégia petista. O DEM tem espaço garantido em cadeia nacional no próximo dia 27. Já o PSDB exibirá seu programa em 17 de junho, depois de sua convenção partidária, em 12 de junho.

O advogado do PSDB, Ricardo Penteado, criticou a postura do presidente e da sua candidata. "A essa altura, esse dano, acho irreparável", anotou. "Mas vamos estudar medidas. Não sei se é o caso de ingressar (na Justiça Eleitoral)."

Líder do DEM no Senado, José Agripino Maia (RN), avaliou como "clara a transgressão" cometida pela PT. "Foi propaganda antecipada clara", disse. O líder do DEM na Câmara, Paulo Bornhausen (SC), fez coro: "Foi transgressão clara e, mais grave, patrocinada pelo presidente da República. É de ficar horrorizado."

Secretário de comunicação do PT, o deputado André Vargas (PR) disse que as críticas ao programa do partido fazem parte da "tática deles (oposição) de tirar o presidente Lula da eleição".

Ambiguidade. Dilma afirmou que não teve intenção de desafiar a Justiça. "Lamento que tenha sido entendido assim. A gente não quis cometer nenhum ato incorreto. O tribunal considerou que havia um equívoco e fomos multados. Pagamos a multa e vamos olhar direito o que está acontecendo para não haver repetição."

À noite, ela mudou o tom: "Vivemos uma situação de bastante ambiguidade legal, que é a chamada pré-candidatura, e nunca se sabe o que pode e o que não pode."

Dilma contou que a estratégia de comparar biografias foi decidida por Lula porque era preciso esclarecer ao eleitor que ditaduras deixam as pessoas "com poucas opções". A inclusão do tema ditadura na propaganda foi planejada para abordar o assunto com antecedência, neutralizando ataques da oposição. Motivo: nos anos 60, Dilma participou de organizações de extrema-esquerda.

Questionada se considerava legítima a comparação de sua biografia com a de Mandela, a petista respondeu: "Se for olhar o tempo de prisão, não. Ele ficou 27 anos preso e eu fiquei 3 anos e meio. Mas o sentido não é esse."

Dilma disse que a intenção de Lula, quando falou de Mandela, foi destacar "características similares" das ditaduras. "Então, quando você quer combater as ditaduras, não tem muitas opções e recorre aos meios de que dispõe naquele momento", afirmou.

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