Oposição quer apurar influência de marqueteiro

PSDB pede que Ministério Público investigue participação de João Santana, que atuou na campanha de Dilma, em lobby a favor de empresa chinesa

Leonêncio Nossa, Tânia Monteiro e Eduardo Bresciani, O Estado de S.Paulo

30 de junho de 2011 | 00h00

BRASÍLIA

Deputados do PSDB pedirão ao Ministério Público Federal do Distrito Federal (MPF-DF) a abertura de investigação sobre "suposto tráfico de influência" praticado pelo publicitário João Santana, marqueteiro da campanha da presidente Dilma Rousseff.

Reportagem do Estado mostrou ontem gravação telefônica em que o prefeito de Campinas, Dr. Hélio (PDT), pede ajuda de Santana para que a presidente se encontrasse com representantes da empresa chinesa Huawei. Em abril, poucos dias após o telefonema, durante visita à China, Dilma se reuniu com Ren Zhengfei, executivo da empresa.

A representação dos tucanos será protocolada nesta semana, assinada pelo líder Duarte Nogueira (SP) e pelos deputados Vanderlei Macris (SP) e Fernando Francischini (PR). "É preciso que seja apurado se o publicitário se utilizou da proximidade com a presidente para favorecer determinada empresa. Isso contraria o interesse público. O que foi pedido a ele, acabou acontecendo. Isso é um indício a ser investigado", disse Nogueira.

Santana é hoje mais do que um ministro sem pasta no governo. Poucos, até titulares de cargos na Esplanada, desfrutam de tanta proximidade com a presidente. Um poder que irrita e intimida assessores palacianos e do PT. Com trânsito livre no gabinete presidencial no Planalto e nas salas do Alvorada, o responsável pela campanha de Dilma em 2010 deu novas feições ao trabalho de marqueteiro. Passou a acumular o papel de consultor governamental, afastando ou aproximando a presidente de debates e políticos.

Conforme as gravações, Dr. Hélio ligou para o publicitário solicitando sua intervenção em favor da Huawei. "Na segunda eu devo me encontrar com ela no meio da tarde. Eu converso com ela, eu já anotei aqui e coloco logo no início da agenda", diz Santana em um dos trechos.

Nos últimos dois meses, Dilma tem preferido se encontrar com Santana no Alvorada, residencial oficial que garante mais privacidade. Ríspida nas relações com subordinados, a presidente costuma fazer ressalvas a conselhos do marqueteiro, mas sempre está disposta a ouvi-lo.

Na crise envolvendo Antonio Palocci, em maio, Dilma foi orientada por Santana a não entrar de "cabeça" na defesa do então ministro. Ela só o defendeu publicamente 11 dias depois da divulgação do aumento súbito de seu patrimônio pessoal. Dilma falou após cobrança do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que pediu uma posição do Planalto a favor de seu apadrinhado político.

Auxiliares diretos de Dilma afirmam que o trabalho de Santana interfere na articulação política. Por orientação dele, a presidente evita ser fotografada com representantes da base aliada envolvidos em escândalos. Ele é visto também como o responsável pelo esvaziamento do esquema de viagens montado na Secretaria-Geral.

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