Remo Casilli/ Reuters
Remo Casilli/ Reuters

Opus Dei, organização católica conservadora, perde independência com reforma do papa; entenda

Grupo, presente em 60 países, havia ganhado status de prelazia há 40 anos, durante papado de João Paulo 2º

Redação, O Estado de S.Paulo

05 de agosto de 2022 | 13h06

O papa Francisco decidiu reformar a influente organização católica Opus Dei, conhecida na Europa e na América Latina por posições conservadoras. Sob o título de Ad charisma tuendum, o documento papal tira poder e independência da organização dentro da Igreja, segundo especialistas em assuntos religiosos ouvidos pela agência AFP

"Alguns interpretaram as disposições da Santa Sé em termos de 'rebaixamento de categoria' ou 'perda de poder'. Não nos interessa esse tipo de dialéticas, pois para um católico não tem sentido o uso de categorias de poder ou mundanas", rebateu Manuel Sánchez, da assessoria de imprensa da Opus Dei, em declaração à AFP.  O pontífice argentino, que desde que assumiu em 2013 tem se comprometido a reformar a Cúria Romana, a gestão central do Vaticano, que se desgastou após uma série de escândalos.

A Opus Dei havia sido elevada em 1982 pelo papa João Paulo 2º, hoje santo, à categoria de prelazia pessoal, única do tipo com esse privilégio. Esse privilégio garantia à organização  - presente em mais de 60 países, incluindo o Brasil - a equiparação a uma diciocese.  A organização tem cerca de 90 mil membros laicos, incluindo empresários e outras personalidades influentes, e dois mil sacerdotes.  Foi fundada em 1928 pelo sacerdote Josemaría Escrivá de Balaguer, que morreu aos 73 anos em 1975 e canonizado em 2002 por João Paulo 2º. 

Francisco determinou que a Opus se reportará ao Dicastério para o Clero a cada ano sobre seu trabalho interno e o desenvolvimento de seu trabalho apostólico. De acordo com algumas interpretação do novo texto, que passou a ser válido nesta quinta-feira, 4, o líder da Opus Dei deixa de ser equivalente a um bispo e não pode usar as roupas episcopais.

Francisco Borba Ribeiro Neto, coordenador do Núcleo Fé e Cultura da Pontifícia Universidade Católica (PUC/SP), observa que as mudanças sobre o Opus Dei fazem parte de um processo para aumentar a colegialidade e diminuir a influência dos polos de concentração de poder. “Dentro dessa lógica, as mudanças retiram do prelado a posição de bispo, o que leva à necessidade de uma integração maior da organização como um todo com os bispos diocesanos”, afirma o professor.

Essa é a mesma avaliação de Rodrigo Coppe, professor do programa de pós-graduação em Ciências da Religião da PUC Minas. “É uma tentativa de tirar autonomia do grupo.”

Neto observa, no entanto, que a maior dificuldade dentro das dioceses não é de ordem formal, mas sim de capacidade de articulação de grupos diferentes. “Em geral, os participantes e simpatizantes do Opus Dei já vivem uma integração com suas dioceses. Onde as dioceses têm essa capacidade de articulação, o Opus Dei já se mostra integrado. Onde as dioceses não têm essa capacidade, a mudança formal terá pouco efeito prático.”

Além da mudança no status do prelado, o Opus Dei passará a se reportar ao Dicastério para o Clero, divisão administrativa da Cúria Romana que analisa temas relacionados a padres e diáconos e supervisiona a educação religiosa dos católicos. A instituição também deverá apresentar um relatório anual sobre o “desenvolvimento de seu trabalho apostólico”. Até agora, a Obra, como também é conhecido o Opus Dei, só tinha de entregar um documento semelhante a cada cinco anos à Congregação para os Bispos, órgão do Vaticano a que estava vinculado./ AFP

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