''Órfãos'' das apostas aos poucos retomam seus postos

Clientes e funcionários aprovam a abertura das casas; estudo diz que 1,5% do País é viciado em jogatina

Renato Machado e Laura Diniz, O Estadao de S.Paulo

16 de junho de 2008 | 00h00

Sentada em uma mesa com quatro amigas, Rosa Valente, de 62 anos, acompanha suas cartelas de olho no prêmio de R$ 6 mil. Desde que o Interbingo reabriu, a aposentada comparece várias vezes por semana ao local, mas diz que não costuma perder muito dinheiro. "Eu venho mais para me divertir com minhas amigas e não para ficar apostando feito uma louca", diz a aposentada, que gasta em média R$ 20 em cartelas e ainda não ganhou nenhum prêmio. O salão de jogos da Interbingo, com capacidade para aproximadamente 480 pessoas, fica praticamente lotado durante as tardes. Há ainda pessoas que esperam vagar lugares nas mesas para iniciar as apostas. O vigia João Paulo Fernandes, de 31 anos, costuma passar no local a caminho do edifício onde trabalha. Também diz jogar pouco, no máximo um conjunto de cartelas por dia, o que custa R$ 6.O mesmo cenário de casa cheia é visto no Teotônio Vilela. O bingo abre no início da tarde, com prêmios de R$ 2 mil a cada duas horas. Com a chegada da noite, o número de freqüentadores aumenta e também os prêmios. Às 21 horas, a casa paga R$ 3 mil para os ganhadores.TRATAMENTOO fechamento dos bingos contribuiu para o tratamento de muitas pessoas viciadas em jogos de azar. O coordenador do Ambulatório do Jogo Patológico (Amjo), do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, Hermano Tavares, diz que a maioria conseguiu superar o problema e foram poucos os que buscaram a jogatina ilegal.Tavares, no entanto, afirma que alguns de seus pacientes sofreram fortes recaídas com a abertura de algumas casas. "Tivemos casos de pacientes que foram passear no shopping, viram os bingos em funcionamento e saíram de lá seis horas depois com dívidas de até R$ 10 mil", diz. Tavares está concluindo um estudo em parceria com a Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), cujos dados preliminares apontam que 1,5% da população brasileira é viciada em jogos de azar.Com a abertura e o grande movimento de algumas casas, muitas pessoas foram contratadas. Segundo a gerente do Interbingo, Morgana de Oliveira, 110 funcionários foram admitidos desde abril - 60% eram ex-empregados, que estavam sem ocupação desde que a casa fechou, em junho do ano passado.De acordo com uma estimativa da Confederação dos Trabalhadores do Turismo e Hospitalidade (Contratuh), o setor de bingos respondia por 120 mil empregos, antes do fechamento dos estabelecimentos. "Nem dá mais para saber quantos estão trabalhando no setor, porque é uma onda de abre e fecha", diz o presidente da Contratuh, Moacir Roberto Tesch Auersvald.

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