Organizadas do samba

Gosto de ver escolas de samba - em primeiro lugar por causa do ritmo da bateria. Me encanto com as cores das fantasias, com a criatividade dos carros alegóricos, com os enredos exagerados... Tá bom, com as mulheres também. E não consigo dissociar do futebol. Carnaval e futebol são irmãos gêmeos, andam juntinhos, um inspira o outro, têm a mesma ginga. Pelo menos por aqui. Em Veneza, é bem capaz de um folião (!) torcer o nariz pro futebol. Porque ali carnaval é coisa chique e os cortejos têm o ritmo de uma gôndola: vai pra lá e pra cá, pra lá e pra cá... Uma monotonia daquelas.Nestes dias com quase nada a fazer, a não ser começar (e largar logo em seguida) a enésima limpeza de papeis e as caminhadas pra ficar em forma, enveredo pela madrugada a curtir as escolas e seus enredos. Se não fosse mais travado do que cofre da Casa da Moeda, até me arriscaria a dar uns passos. Melhor não, seria um fiasco! Cada um na sua: a minha é aplaudir.Ali pelas tantas, nestas noites insones, vejo no Sambódromo a Mancha Alviverde e a Gaviões da Fiel, símbolos de Palmeiras e de Corinthians. As duas desfilaram com capricho, uma fineza. Aprenderam direito com escolas tradicionais, que carregam nas costas décadas de serpentinas e suor. Se bem que, como os clubes que inspiraram seu surgimento, também já amargaram rebaixamento. De qualquer forma, era um clássico na avenida. Pena que em dias diferentes - a Mancha saiu na madrugada de sábado, a Gaviões, na de hoje. A separação foi necessária, porque teve época em que elas levaram para a passarela a rivalidade das arquibancadas. Teve quebra-pau e o pessoal mais antigo do samba se assustou.Por isso, me flagrei a perguntar: será que conseguem atrair paixão dos fãs de seus times? Pois nos estádios o torcedor "comum" resiste às uniformizadas. Preconceito meu à parte, acho que sim. Sobretudo a Gaviões, que deve ter mais sócios do que o próprio Corinthians. Mas, como integrante da velha-guarda de curiosos de carnaval, sinto certa nostalgia da época em que, em São Paulo, o corintiano se identificava com a Vai-Vai e o palmeirense, é óbvio, torcia pela Camisa Verde e Branco. Era uma aproximação espontânea, natural, se bem que nada fanática. Ainda assim, era sempre o futebol brincando lado a lado com seu irmão gêmeo.Os tempos são outros e, do jeito que crescem essas escolas ligadas a organizadas, logo terão torcida à parte, dissociada dos clubes de origem. Quer saber do que mais? Não me surpreenderei se, no futuro, surgir a Sport Clube Gaviões da Fiel ou a Sociedade Esportiva Mancha Alviverde como times de futebol! Para rivalizar com o Timão e o Verdão de hoje. Enquanto isso, curto o carnaval e fico à espera do Palmeiras x Corinthians do dia 8, com bola rolando e Ronaldo em campo. Esse clássico não perco por ziriguidum nenhum!

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