'Orlando Silva era o operador do esquema'

Em depoimento à PF, João Dias reafirmou que parte do dinheiro desviado ia para ministro

VANNILDO MENDES / BRASÍLIA, O Estado de S.Paulo

22 Outubro 2011 | 03h03

Em depoimento dado à Polícia Federal na última quarta-feira, o policial militar João Dias, delator do suposto esquema de corrupção no Ministério do Esporte, disse que foi informado por terceiros que aproximadamente metade do dinheiro desviado de convênios com ONGs ligadas ao PC do B era destinada ao ministro Orlando Silva.

"Parte dos valores recebidos pelo ministro era para proveito pessoal e parte para beneficiar o PC do B", afirmou. O depoimento, ao qual o Estado teve acesso, durou mais de sete horas.

Dias não apresentou vídeos, áudios e outras provas prometidas, alegando que o fará na próxima segunda-feira. Mas ele detalhou o que seria um esquema de aparelhamento e arrecadação de propina que o PC do B teria montado na pasta. Segundo o delator, pelo menos quatro remessas de dinheiro foram entregues na garagem do ministério e numa delas Orlando Silva estaria presente e teria baixado o vidro do carro para falar com o entregador. "É muito pouco provável que o ministro não tenha visto a entrega dos malotes", ironizou.

Questionado pelos delegados, o delator ressalvou que "nunca viu o ministro recebendo qualquer malote de dinheiro". Ele disse que "todas as informações prestadas sobre coleta e distribuição dos recursos arrecadados foram prestadas por Célio (Soares), Toni Matos (ex-jogador de futebol) e Michael (Vieira), em conversas informais". Os três seriam operadores do esquema.

O início. Dias relatou que, em 2004, foi procurado por uma comissão de cúpula do ministério, comandada pela coordenadora-geral da Secretaria de Esporte, Ralcilene Santiago, que lhe propôs parceria com o programa Segundo Tempo.

Em contrapartida, o policial teria de comprar materiais esportivos de fornecedores indicados pelo esquema e pagar uma fatia de 10% a 20% do valor do convênio a um escritório de advocacia designado pelo grupo. Metade do dinheiro arrecadado com o pedágio cobrado de Dias e de outras ONGs, segundo o delator, seria destinada à estruturação do PC do B no Distrito Federal.

Na hipótese mais branda, Dias deveria desembolsar R$ 340 mil, 10% dos convênios assinados. O maior deles foi firmado em 2005 com a Federação Brasiliense de Kung Fu, no montante de R$ 2 milhões, mais R$ 400 mil de contrapartida da ONG de Dias. Mas o policial se rebelou contra o alto valor do pedágio e aí começaram seus problemas.

Os recursos dos convênios, cerca de R$ 3 milhões, foram embolsados entre 2006 e 2008, inicialmente na gestão do ministro Agnelo Queiroz, hoje governador do DF pelo PT. Mas os serviços não foram prestados e Dias acabou preso em 2010 durante a Operação Shaolin, da Polícia Civil do DF. Na ocasião, Orlando Silva era secretário executivo da pasta. A partir de 2008, quando ele já era ministro, o policial alega que começou a ser alvo de auditorias e inspeções, que culminaram com a exigência para que devolvesse os R$ 3 milhões.

O policial militar disse que teve vários encontros com Orlando Silva durante a vigência dos convênios. O mais marcante deles teria ocorrido em 2008. Na presença de testemunhas, o ministro teria orientado Dias a comprar quimonos do fornecedor Miguel Santos Souza, espécie de chefe de operação do esquema de captação de dinheiro desviado por meio de uma rede de laranjas. Dias afirmou ainda ter ouvido diversas vezes de Ralcilene e de outros interlocutores que parte do dinheiro arrecadado ia parar no bolso do ministro. "Tenho certeza que Orlando Silva era o operador (maior) desse esquema", afirmou.

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