Márcio Fernandes/Estadão
Márcio Fernandes/Estadão

Os 66 que quase ficaram de fora da indenização

Eram sítios, roças e casas de fim de semana sem moradores fixos e que ‘sairiam da conta’

Bruno Ribeiro e Márcio Fernandes, ENVIADOS ESPECIAIS

29 Outubro 2016 | 19h30

MARIANA -  Os distritos destruídos pela lama da Samarco tinham ao menos 66 imóveis - terras e casas - que pertencem a pessoas que não moravam naqueles lugares. Eram sítios, roças, casas de fim de semana. Também atingidas pela tragédia, em maior ou menor escala, essas pessoas passaram os dez meses seguintes ao desastre tendo de comprovar que haviam sido lesadas pela mineradora.

Fomos nós, as vítimas, que tivemos de comprovar o que estávamos falando, o que tínhamos”, diz o mecânico Mauro Marcos da Silva, de 47 anos, um dos 66 que ficaram sendo os atingidos “não reconhecidos” pela mineradora.

Silva tem uma oficina mecânica na principal rua de Mariana e mora na cidade. Tem também uma loja de roupas com sua mulher. O trabalho foi suficiente para comprar uma casa em Bento Rodrigues. O lugar era usado nos fins de semana, mas também servia de depósito para as lojas. “A gente ia lá à noite, durante a semana. E nos fins de semana para descansar. Era muito bom.” 

Estava em Mariana, na oficina, no dia da tragédia. Soube pelo telefone, avisado por um amigo. “Ele ligou e perguntou onde estavam meus pais. Respondi que estavam em Mariana. Ainda bem”, lembra. Mesmo assim, correu para Bento, para ver, sem poder fazer nada, a lama levar tudo. Passados os primeiros dias da tragédia, quando era feito o cadastramento dos atingidos, preencheu as fichas indicadas pela Samarco. E, aí, a angústia que já sentia aumentou. “Eles disseram que minha casa era de fim de semana e eu não tinha direito à indenização”, acusa. “O acidente foi em uma quinta-feira. Se minha casa era de fim de semana, como foi levada junto?”, faz graça. 

“Depois, eles disseram que a assistência era para as pessoas necessitadas e eu era um empresário. E, como empresário, não devia ficar mendigando o dinheiro da Samarco”, afirma Silva, vestindo macacão de mecânico e com graxa de motor até os cotovelos. “Respondi que não estava ‘mendigando’ nada, só buscando meus direitos.”

O reconhecimento dos prejuízos veio por meio de uma ação coletiva ingressada pelo Ministério Público contra a mineradora. Foram duas audiências até agora, em setembro e em outubro, que obrigaram a empresa a reverter seus entendimentos. “Tive de levar foto do carro que eu perdi. Eles primeiro tinham avaliado em R$ 3.500, mas eu tinha pago R$ 12 mil. Depois, o perito disse que valia R$ 17.900.”

A Samarco informou que casos individuais não são tratados publicamente, mas que a audiência citada ajudou a acelerar processos.

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