Os esquecidos do casarão do barão

Ocupação de imóvel nos Campos Elísios tem pelo menos 20 anos, mas hoje até invasores reclamam do abandono

Gilberto Amendola, O Estadao de S.Paulo

24 de novembro de 2007 | 00h00

Quem passa na frente do número 180 da Alameda Ribeiro da Silva, esquina com a Rua Barão de Piracicaba, no bairro de Campos Elísios, região central, costuma fazer previsões catastróficas sobre o lugar. O esqueleto daquilo que, no fim do século 19, abrigou a família de um dos barões do café paulista parece que vai desmoronar a qualquer momento. Nem as 15 famílias que ocupam o quintal do casarão se sentem à vontade por lá. ''''Simplesmente, esqueceram da gente'''', afirmou Leda Pereira da Silva, de 56 anos.A ocupação do casarão da Alameda Ribeiro da Silva tem pelo menos 20 anos. Em meados da década de 80, os herdeiros do imóvel teriam contratado um caseiro para tomar conta do local e evitar invasões. O problema é que, segundo os próprios invasores, esse caseiro alugou o espaço para dez famílias. ''''Paguei um mês de aluguel aqui. Depois, vi que era uma bagunça e não paguei mais. Ninguém pagou'''', diz Leda.Aos poucos, vestígios de um passado de glória foram desaparecendo. Um busto da princesa Isabel foi furtado - assim como qualquer objeto que parecia ter algum valor. ''''A única coisa da princesa Isabel que sobrou por aqui foi o seu fantasma. Eu já vi o vulto passeando no casarão'''', garante Leda. A ocupação teria fugido do controle do caseiro, que, segundo Leda, ''''desistiu de viver do aluguel do casarão'''' e foi embora.O prédio ficou à mercê dos sem-teto e transformou-se em um cortiço. Nem adiantou a Prefeitura cortar água e luz dos ocupantes. Com o tempo, os quartos e salas foram cobertos por ligações clandestinas de energia elétrica. O emaranhado de fios contribuiu para que três incêndios ocorressem no casarão. ''''Minha filha quase morreu. Um bloco de concreto caiu em cima do berço onde ela estava dormindo'''', conta Lívia da Silva, de 21 anos.Só depois do terceiro incêndio, em 2005, a Prefeitura interditou o imóvel e removeu quem morava lá - para o quintal. Hoje, há 15 famílias vivendo ao redor do casarão. ''''A gente não é ligado a nenhum movimento de moradia. Aqui tem garçom, porteiro, taxista, o pessoal da reciclagem desempregado'''', diz o garçom Cícero Rodrigues de Andrade, de 25 anos.São cerca de 50 pessoas - muitas crianças - morando em barracos, onde os barões de café guardariam seus cavalos. Também são muitos os cães e há até galos de briga. ''''A Prefeitura vem de vez em quando, mas não faz nada. Já pegaram nossos nomes. Disseram que iam nos levar para outro lugar, mas, até agora, nada'''', disse o porteiro Antônio Francisco de Castro, de 32 anos.A Subprefeitura da Sé informou que ações sociais são realizadas com os moradores, mas não disse quais. Mesmo assim, qualquer processo de reintegração de posse e retirada das famílias só poderá ser concretizado pelos herdeiros que, até o momento, não teriam se interessado em salvar o casarão.

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