Melinda Beck/NYT
Melinda Beck/NYT

Os homens e a terapia do ‘#MeToo’ nos EUA

Introspecção deu lugar a um momento em que a terapia tem levado os pacientes a entrar em tópicos que evitavam

O Estado de S.Paulo

04 Julho 2018 | 03h00

A síndrome de Harvey Weinstein (produtor hollywoodiano acusado de abusos por várias mulheres) continua na cabeça de meus pacientes. Estávamos no meio de uma sessão quando o paciente pediu pausa. Era um jovem recém-saído da universidade, que veio de Michigan para Nova York para assumir um cargo na área de tecnologia. 

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“Há uma coisa sobre a qual preciso falar, mas tenho medo de que você vá me julgar”, disse ele. Contou então que vinha pensando nas mulheres com as quais havia dormido – e se sentia péssimo sobre alguns dos encontros. “Não estuprei ninguém nem fiz nada do gênero, mas acho que deixei minhas parceiras em situação muito desconfortável.” 

Sou um psicoterapeuta de Nova York que atende muitos homens. Mas antes desse paciente não me lembro de ter ouvido de nenhum outro uma declaração como essa – uma admissão voluntária de comportamento coercitivo ou manipulador em relação às mulheres. A era do#MeToo (eu também) mudou meu trabalho. Se antes a terapia era mais voltada à introspecção, o momento atual tem levado homens em terapia a entrar em tópicos que costumavam evitar. 

Comecei a sentir no trabalho efeitos das histórias sobre Weinstein não muito após elas terem pipocado. Houve também a considerável colaboração de uma reportagem sobre o comediante Aziz Ansari. Embora as acusações contra famosos de certo modo estivessem distantes de meus pacientes, são relevantes para algumas perguntas que costumam trazer para a terapia, como: por que entendem tão mal as mulheres com as quais convivem? Por que sentem com frequência que as estão magoando?

Um paciente, terceiranista de residência médica, me disse que se viu em Ansari. Ele havia tentado abordagem mais “dominadora” com as mulheres, pois ouvira dizer que gostam disso. Fez um avanço mais agressivo com a namorada – e ouviu que a estava assustando. 

A maioria dos homens que entra em minha sala costuma fingir que não tem emoções, e quase sempre se esconde por trás de uma amabilidade protetora. Quando pergunto a um paciente, por exemplo, como se sente quando a namorada diz “estou tão para baixo que não posso sair com você agora”, a resposta usual é “frustrado”. Essa palavra tão usada não quer dizer essencialmente nada. A maioria dos homens gasta tão pouco tempo analisando sentimentos que o vocabulário para descrever o que se passa no coração fica limitado.

Um fotógrafo recém-solteiro fez um trabalho tão bom desconectando-se de seus sentimentos que não conseguia dizer se havia sido ou não feliz com a namorada. Um banqueiro de investimentos na casa dos 40 anos apenas deu de ombros quando perguntei como se sentia quando a mulher o atacava de alguma forma.

Constatei que, em muitos homens, debaixo da ansiedade constante existem camadas de vergonha. Vergonha simplesmente de ter sentimentos, de acreditar que existe algo de fundamentalmente errado com eles, de achar que não são adultos, apenas crianças. Esse tipo de vergonha tóxica vive em contradição direta com a vergonha saudável, de que precisamos para reconhecer erros e assumir responsabilidades. 

Descobri que, com muita frequência, as dificuldades dos homens com as mulheres têm raízes na infância. No caso do médico residente, por exemplo, sob sua constante busca por mulheres havia memórias dolorosas que o levavam a acreditar que era inaceitável aos olhos do pai. Um empresário de 42 anos, que veio me ver por sua incessante infidelidade e da compulsão à mentira, descrevia suas emoções como se fosse um jovem de 15 anos buscando aprovação da turma. 

Em seus esforços para fugir da vergonha, alguns homens se refugiam numa espécie de torpor. Outros entram em depressão. Outros, ainda, agarram a dor que sentem e a devolvem ao mundo com atitudes violentas e insultos. São esses os principais problemas que os levam a buscar terapia. 

Mas, apesar do quadro sombrio, a cura é possível. E vem quando buscamos entender as pessoas, não a vilipendiá-las. 

O jovem que, meses atrás, me disse que tinha medo de que fosse julgá-lo, após a confissão inicial fez-me as seguintes perguntas: “Sou igual a Weinstein? Sou um monstro?” 

Em seguida calou-se, olhando para o nada. Perguntei: “Estou te olhando como se fosse um monstro?”. Seus olhos procuraram os meus e recebi seu olhar de modo aberto. E disse: “Saiba que respeito a coragem que teve em admitir uma coisa dessas e compartilhá-la comigo, mas ao mesmo tempo não quero ver você se fechar, porque então vai se esquecer deste momento.” 

Ele começou a chorar e soluçar. Ondas de tristeza emergiram enquanto imaginava o sofrimento que havia causado às mulheres. Na sessão seguinte, disse algo que me surpreendeu pela simplicidade e clareza. Revelou que estivera pensando em uma das mulheres das quais me falara. Convidou-a para um café e pediu desculpas. / TRADUÇÃO DE ROBERTO MUNIZ 

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