Os irmãos que viraram chope

Donos de bares na Vila Madalena, os Altman são a cara da boemia

Pedro Venceslau, O Estadao de S.Paulo

20 de julho de 2008 | 00h00

A história da família Altman se mistura com a da boemia na Vila Madalena. No começo de 1980, quando o bairro começou a ser povoado por jovens artistas, músicos e estudantes da Universidade de São Paulo (USP), os irmãos Arnaldo, Ricardo e Helton, então com 18, 22 e 24 anos, respectivamente, procuraram um tio judeu rico com uma proposta inusitada: queriam dinheiro emprestado para montar um bar. Mineiros de Belo Horizonte e filhos de um empresário do ramo de móveis, eles moravam na cidade desde os fim dos anos 70. Arnaldo e Ricardo estudavam Engenharia, e Helton, Economia. Pura fachada. Eles entendiam mesmo era de cerveja. Ou melhor, de chope. O tio Jacob insistiu para que o trio escolhesse um negócio mais seguro, quem sabe uma loja de colchões. Nada feito. Com a verba na mão, montaram o primeiro bar da família: o Clube do Choro, na Rua Jaú, onde também funcionava a sede do clube. O negócio deu certo e, quatro anos depois, a família decidiu abrir outro negócio. Dessa vez, o bairro escolhido foi a Vila Madalena, região que aos poucos se transformava em um reduto da boemia paulistana. Com o aluguel nos Jardins pela hora da morte, uma geração migrou para lá em busca de casinhas geminadas, aluguéis baratos e uma vizinhança vibrante. "A Pedroso de Moraes é a Ipanema paulistana. Tá certo, aqui não tem praia. Mas também não tem carioca." Esse foi o convite provocador com que os irmãos Altman inauguraram o Vou Vivendo. O projeto era meio maluco: oferecer chope - quando a moda era cerveja de garrafa - e abrir o palco para artistas desconhecidos da cena musical. O bar logo seduziu os novos moradores da Vila Madalena. "Foi no Vou Vivendo que o Lenine tocou pela primeira vez em São Paulo. O primeiro show do Guinga, que já tinha 20 anos de carreira, também foi lá. Isso sem falar em Chico César, Zeca Baleiro, Arrigo Barnabé, Mônica Salmaso...", conta Helton. "Nós somos os irmãos que viraram suco", completa Ricardo. Ou seria chope?DOIS DEDOS DE COLARINHOO Clube do Choro durou até 1993, e o Vou Vivendo, até 1997. Mas, no ano 2000, o quarteto - agora com o caçula Ronen como sócio - decidiu abrir um outro bar. O difícil foi arrumar um lugar.Graças à novela Vila Madalena, da Globo, a região virou moda, e os preços subiram. Mesmo assim, eles conseguiram uma casa em um ponto estratégico, na Rua Fidalga, onde abriram o Filial, um típico boteco no melhor estilo carioca.Por incrível que pareça, nenhum bar daquela região oferecia chope naquela época. "Chegamos a achar que a época do chope e do happy hour tinha acabado. Foi o boom das baladas em discotecas. Esse negócio de boteco parecia nostalgia", diz Arnaldo. Hoje, os Altman são donos de três dos bares mais movimentados da Vila Madalena - Filial, Genésio e Genial. Inaugurado em 2002, o Genésio vende comida cantineira e tem um mote: preservar a história do bairro. A começar pelo nome. Antes de ser bar, funcionou ali, por 50 anos, a oficina do Genésio.O caçula dos três bares, o Genial, abriu as portas em 2006. Entre os freqüentadores assíduos dos três botecos estão Junior, Domingos de Oliveira, Luana Piovani, Seu Jorge e Zé do Caixão. Quem passa por lá no meio da madrugada corre o risco de se deparar com o Seu Jorge cantando Cartola em dueto com Yamandu Costa. Ou com Maria Rita fazendo uma rodinha de samba animada entre rodadas de chope. As três casas juntas vendem, em média, 50 mil litros de chope por mês - uns 100 mil copos mensais, pela conta dos irmãos. Quer dizer, vendiam. Nos primeiros fins de semana da lei seca, a venda de chope caiu 50%. E os quatro irmãos tiveram de se sentar para fazer as contas."Se continuar nesse patamar, vai ter muita demissão e quebradeira. O custo da balada vai ficar muito alto: o cara que gasta R$ 30 numa noite, precisa de R$ 60 para ir de táxi ao Ipiranga. Beber virou um programa caro", afirma Ricardo. Na ponta do lápis, os Altman chegaram à conclusão que não vale a pena criar um sistema de transporte exclusivo do bar. Pela lei, eles não poderiam nem cobrar por esse serviço. E repassar o custo para o chope seria um desastre. Mas os irmãos acreditam que os boêmios darão o seu jeito. Eles, pelo menos, arrumaram uma saída. Quando os irmãos bebem juntos - e eles fazem isso quase todos os dias -, Ricardo, que parou de beber há dois anos, assume o volante. Sobre a relação delicada entre sócios e irmãos, os quatro respondem em coro: "Fica difícil xingar a mãe do outro."

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