Os longevos presidentes dos 'nanicos'

Dos 27 partidos políticos em atividade hoje no Brasil, dez são comandados pelo mesmo dirigente há mais de uma década

João Domingos, O Estado de S.Paulo

01 de maio de 2011 | 00h00

A democratização do País a partir de 1985 permitiu a proliferação de partidos das mais variadas tendências, alguns com "donos", tão longa é a permanência de seus presidentes no cargo. Dos 27 partidos - serão 28 quando o PSD de Gilberto Kassab for regularizado -, 10 têm presidentes com uma década ou mais no comando.

O mais longevo é Daniel Tourinho, presidente do Partido Trabalhista Cristão (PTC). Antes, ele fora o dirigente máximo do Partido da Juventude (PJ) e do Partido da Renovação Nacional (PRN), duas agremiações que surgiram para dar abrigo ao então candidato a presidente da República Fernando Collor, no final dos anos 80. Extintos esses partidos, Tourinho fundou o PTC. Em 2010 o partido recebeu 2,02 milhões do Fundo Partidário.

Também completou 21 anos à frente do partido o presidente do Partido Social Cristão (PSC), Vítor Nósseis. Em 2010, o PSC recebeu do Fundo Partidário R$ 3,9 milhões. A partir deste ano deverá pegar um quinhão maior, porque elegeu 17 deputados no ano passado e deixou de ser um nanico. Antes, tinha sempre de dois a cinco em sua bancada.

O terceiro mais longevo é o deputado Roberto Freire (SP), presidente do Partido Popular Socialista (PPS). Antes, Freire foi presidente do Partido Comunista Brasileiro (PCB), do qual saiu para fundar o PPS, que recebeu R$ 7,9 milhões do Fundo Partidário no ano passado.

José Maria de Almeida, que a cada quatro anos costuma concorrer à Presidência pelo Partido Socialista dos Trabalhadores Unificado (PSTU), com o bordão "Contra burguês, vote 16", está à frente do partido desde 1995. O PSTU, que não elegeu deputado em 2010 e não tinha bancada nas legislaturas anteriores, recebeu do fundo R$ 597 mil.

Levy Fidelix, cuja principal bandeira era a construção de um sistema de transporte elevado, está à frente do Partido Renovador Trabalhista Brasileiro (PRTB) desde 1995. O partido recebeu R$ 743 mil do Fundo Partidário no ano passado, quando não tinha deputado. Elegeu dois. Deverá aumentar sua participação no bolo distribuído aos partidos já neste ano.

Figura conhecida nas eleições presidenciais, o ex-deputado José Maria Eymael está à frente do Partido Social Democrata Cristão (PSDC) desde 1995. Seu partido recebeu R$ 745 mil do fundo. Continuará assim, porque não elegeu ninguém em 2010. Eymael disse que está à frente do PSDC para proteger a Democracia Cristã.

"Estou à frente do partido por tanto tempo não por vocação para isso, mas para evitar outros atos de traição. Quem já sofreu esse processo tem de ter cuidado". Eymael prometeu que não se candidatará mais a presidente da República. "Minha missão já foi cumprida."

O deputado Roberto Freire, presidente do PPS, disse que a longevidade dos dirigentes pode ser uma herança da esquerda. "Durante a ditadura os dirigentes dos partidos de esquerda nem tinham como fazer seus congressos para renovar as direções porque poderiam ser presos ou mortos. Então, ficavam muito tempo à frente dos partidos. Eu tenho ficado não por imposição, mas por sucessivas eleições, sempre por unanimidade ou por aclamação", disse ele.

Pernambucano, Freire fez carreira pelo Estado, chegando a senador. Foi também candidato à Presidência pelo PCB e a vice-presidente, já no PPS. Em 2010, elegeu-se deputado por São Paulo. Também foi o líder do governo de Itamar Franco (1992/1994).

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