PIERRE ANDRIEU / AFP
PIERRE ANDRIEU / AFP

Os neandertais ouviam tanto quanto nós

O ouvido reconstruído de um neandertal fornece mais um elemento para desvendar o mistério quanto a se os primeiros humanos conseguiam falar

Sabrina Imbler, The New York Times

06 de março de 2021 | 10h00
Atualizado 06 de março de 2021 | 15h52

Se de algum modo você conseguisse remontar 130 mil anos, tendo a chance de se deparar com um neandertal, poderia se ver contando a ele algumas das maiores invenções da humanidade. O Neandertal não teria nenhuma noção do que você falasse, muito menos reagir a respeito. Mas talvez conseguisse ouvi-lo perfeitamente e entender consonantes como “t”, “k” e “s” que aparecem em muitas línguas humanas modernas.

Uma equipe de cientistas reconstruiu o ouvido médio e externo de um neandertal e concluiu que esses primeiros humanos ouviam como nós. Seu estudo, publicado na revista Nature Ecology & Evolution, concluiu que os neandertais tinham a capacidade anatômica de entender uma série de sons similares como o Homo sapiens moderno, incluindo frequências de fala mais altas que envolvem principalmente as consoantes oclusivas.

Para os autores do estudo, esta pesquisa tem implicações que vão além do ouvido. Qualquer insight sobre como eles ouviam oferecerá novas pistas no tocante a uma questão não solucionada e muito debatida sobre esses antigos hominídeos: se eles falavam.

A audição e a fala com frequência estão unidas no reino animal, de acordo com Dan Dediu, cientista da universidade Lumière em Lyon, na França, que não fez parte da pesquisa. “Não teria sentido para um animal produzir uma frequência que não pudesse ser ouvida por seus companheiros da mesma espécie”.

O estudo oferece nova evidência de que os neandertais teriam algum tipo de linguagem falada reconhecível, disse Sverker Johansson, pesquisador da Dalarna University. “É gratificante encontrar mais uma confirmação de que os neandertais realmente falavam”, escreveu ele em um e-mail.

Há décadas, o debate se centralizou num simples osso de neandertal, localizado na na parte anterior do pescoço, abaixo da mandíbula e é chave para a fala; é hióide, um osso pequeno, frágil e não conectado com nenhum outro osso. O único hióide neandertal completo foi recuperado de um esqueleto numa caverna em Israel na década de 1980 e é surpreendentemente similar a um hióide humano, o que levou a uma série de tentativas de reconstrução da laringe e do trato vocal do neandertal.

Mas é difícil tirar conclusões generalizadas de um único osso fossilizado, sem falar de um osso retirado de um esqueleto com o tecido da pele totalmente perdido. “Você não tem muitas línguas preservadas de um neandertal”, disse Anna Goldfield, antropóloga e responsável pelo podcast The Dirt.

Alguns cientistas, então, adotaram um enfoque diferente. Há 20 anos, Ignacio Martínez, paleontólogo da universidade de Alcalá, na Espanha, um dos autores do estudo, teve uma ideia inusitada: estudar a evolução da linguagem reconstruindo o ouvido desses primeiros humanos.

“Foi uma ideia maluca e brilhante”, disse Rolf Quan, da universidade de Binghamton, que participou do estudo. Os pesquisadores não sabiam se conseguiriam reconstruir o ouvido de um neandertal; ninguém havia feito isto antes. Mas passaram duas décadas desenvolvendo, testando e retestando modelos de ouvidos.

No novo estudo, os pesquisadores usaram a tomografia computadorizada em alta resolução em cinco neandertais, 10 Homo sapiens modernos e hominídeos de Sima de los Huesos, um sítio arqueológico onde hoje é a Espanha, que viveram antes dos neandertais.

A equipe criou modelos em 3D dessas estruturas auditivas e usou um tipo de software especial para calcular a transmissão de potência do som, que descreve a maneira como a energia do som se move do ambiente para o canal auditivo e se dirige para a cóclea – basicamente o quanto de energia sonora entra no seu ouvido interno.

O estudo levou à conclusão de que o ponto ideal da audição, a faixa de frequência em que pelo menos 90% da potência sonora chega ao ouvido interno, se estendia para frequências de 3 a 5 kHz, que produzem as consoantes oclusivas. Os pesquisadores acham que essa otimização no caso das consoantes é um sinal chave de que os neandertais tinham uma linguagem verbal.

“O uso de consoantes distingue a linguagem humana da comunicação dos mamíferos, que é formada quase completamente de vogais”, disse Quam.

E de fato, o estudo concluiu que o ponto ideal do ouvido dos neandertais era o mesmo do ouvido humano moderno, ao passo que os primeiros hominídeos de Sima de los Huesos tinham um alcance auditivo entre o dos chimpanzés e dos humanos modernos.

Para os pesquisadores, os neandertais provavelmente conseguiam ouvir consoantes oclusivas que são produzidas sem as cordas vocais, como o “t” e o “k”, ou consoantes fricativas, incluindo o “f”, “s”. As consoantes oclusivas não podem ser emitidas muito alto num ambiente o que indicaria que eram usadas para uma comunicação mais próxima entre membros da mesma espécie.

Apesar dos neandertais possuírem toda a anatomia adequada para suportar a fala humana, os autores admitem que a sua capacidade física não implica uma capacidade mental, ou o conhecimento exigido para a linguagem humana.

“A fala não é necessária para a linguagem”, disse Robert Berwick, especialista em linguagem da computação no MIT – Instituto de Tecnologia de Massachusetts. A interpretação dos autores do estudo quanto ao que o ouvido reconstruído indica sobre a comunicação dos neandertais não o convenceu. “Se tivéssemos evoluído com ouvidos moldados diferentemente, então teríamos simplesmente feito uso diferente dos contrastes que somos ainda capazes de perceber”, disse ele.

Essa questão talvez nunca seja totalmente resolvida, mesmo que as evidências se acumulem. “Não restou nenhum neandertal para falar”, disse Ana Goldfield. / Tradução de Terezinha Martino

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