Os pioneiros da praça Roosevelt

Rodolfo Vázquez e Ivam Cabral agora preparam escola de teatro

Rodrigo Brancatelli, O Estadao de S.Paulo

24 de janeiro de 2009 | 00h00

Com toda a pompa e circunstância, o governo estadual anunciou no ano passado que vai tirar do bolso a bagatela de R$ 300 milhões para contratar os arquitetos suíços Jacques Herzog e Pierre de Meuron e construir um megacomplexo cultural no centro de São Paulo. A ideia é que Herzog e Meuron - gênios da arquitetura, sempre sérios, carrancudos e com ternos bem cortados nas poucas fotos em que se deixam aparecer - consigam criar um prédio belíssimo que ajude a revitalizar a área da Cracolândia.Antes o governo tivesse procurado outra dupla, Rodolfo García Vázquez e Ivam Cabral, desbocados, falastrões, um nascido no bairro paulistano do Carandiru, outro na minúscula Ribeirão Claro, a 450 quilômetros de Curitiba. Por um precinho bem mais camarada - era só pagar um café expresso e uma latinha de Coca-Cola light -, eles contariam a experiência de revitalizar quase que sozinhos uma das áreas mais degradadas da capital, a Praça Roosevelt.Rodolfo, de 46 anos, e Ivam, de 42, se esbarraram pela primeira vez há exatos 20 anos e estão juntos desde então como amigos e diretores da companhia Os Satyros, um dos mais bem-sucedidos grupos teatrais experimentais do País. Instalaram-se primeiro num teatro decadente da Bela Vista, foram para Curitiba, depois mudaram de mala e cuia para Lisboa e em 2000 voltaram para São Paulo à procura de uma nova sede, um lugar fixo para desenvolver técnicas, formar atores e montar espetáculos. Começava aí uma história recheada de personagens e situações inusitadas, com direito a travestis, cafetões, michês, traficantes, drogados, ameaças de morte e, no final das contas, filas de espectadores que acabaram dando uma nova cara à Roosevelt."A gente nunca quis ir pra Vila Madalena, Jardins, Vila Mariana... Passamos um ano procurando um lugar para montar os Satyros , sempre em endereços como a Rua Aurora e o Largo do Arouche", diz Ivam, tomando seu café expresso, enquanto Rodolfo pede uma Coca light e observa o movimento do bar La Barca, que poucos anos atrás era uma lugar tomado de michês na Roosevelt. "Essa praça aqui foi um achado. Fica no cruzamento do Minhocão com a 9 de Julho, com a Tiradentes, com a Augusta... É o coração de São Paulo, mas era o coração apodrecido da cidade."Ivam, ator de ofício, parece mais um guia turístico do submundo da Roosevelt. Conta histórias com tons aventurescos, chama os traficantes pelo nome, lembra dos travestis como se fossem de sua família. "Esse bar mesmo que estamos, você pagava R$ 20 e podia transar com todo mundo que estivesse aqui, tipo self-service", diz. "Já naquele prédio abandonado lá na ponta só moravam travestis. Tem um bueiro bem na frente do teatro dos Satyros, você viu? Era ali que os traficantes guardavam a mercadoria, era tipo um armário de drogas. A gente teve de absorver e entender todo esse universo quando mudamos para cá. Os planos de revitalização não funcionam quanto têm caráter higienista. Aqui só deu certo porque, antes de tudo, houve o respeito."O prenúncio dos maus tempos na Roosevelt começou com as obras do Minhocão, nos anos 60. Em janeiro de 1970, depois de uma reforma, a praça de 30 mil m² foi reinaugurada com escola de samba e tiros de canhões. Mas nada disso afastou a decadência - para se ter uma ideia, quando os Satyros chegaram à região, o aluguel do prédio no número 214 não passava de R$ 2 mil. "Era tenebroso", resume Rodolfo. "Logo no primeiro ano, teve duas chacinas no bar do lado. Os críticos de teatro se recusavam a botar os pés na Roosevelt, o Estadão nem veio nos ver. Mas não pensamos em ir embora. Estávamos cansados do certinho."A trajetória na Roosevelt ainda teve muitos capítulos a serem esquecidos. Como em 2006, quando traficantes ameaçaram matar todo mundo na porta do teatro dos Satyros. "Falaram que ia ter um banho de sangue", diz Ivam. "Na mesma época, os teatros da cidade estavam sendo assaltados, os bandidos roubavam todo mundo da plateia. Houve um acordo entre jornalistas e produtores para não divulgar isso, mas aconteceu no Fábrica, no TBC... Aí tivemos uma reunião com todo mundo dos Satyros, contamos que os traficantes estavam nos ameaçando. Esse foi o ?dia do fico?. Todos quiseram continuar. Não era mais uma simples coisa de artista, estávamos defendendo a nossa posição de cidadãos."Nessa mesma época, os Satyros já estavam chamando a atenção da crítica e do público, que redescobriram a região. A trupe ganhou prêmios; outros teatros chegaram no encalço; bares começaram a receber jovens que outrora estavam na Vila Madalena. Num contexto maior, a Roosevelt não só entrou na moda como colocou o teatro alternativo dentro do contexto cultural de São Paulo.É só ligar em uma imobiliária para provar essa revitalização da Roosevelt. O aluguel do espaço dos Satyros saltou para R$ 7 mil. Já uma quitinete de 50 metros quadrados, que há dez anos valia R$ 15 mil, hoje não sai por menos de R$ 100 mil, uma valorização sem igual na cidade. Detalhe importante: a Prefeitura, que deveria pensar em planos de urbanização da capital, nunca investiu um centavo na revitalização da praça.Com o sucesso, os planos dos Satyros só se tornaram mais complexos e ambiciosos. Nos próximos meses, começa a reforma de um prédio de 11 andares abandonado na Roosevelt, doado pela Secretaria de Estado de Cultura. Ali será a Escola da Praça, um centro de educação teatral com oito cursos, de dramaturgia a sonoplastia. Ivam será o principal coordenador. Além disso, os Satyros estreiam uma série na TV Cultura e ainda filmam o longa Outono. Ah, e se alguém pagar um cafezinho no La Barca, eles também podem ajudar a entender como São Paulo se transforma e se reinventa mesmo com poucos estímulos. "Por que a Nova Luz não melhora? Ora, porque não há nada ali à noite", diz Ivam. "Não pode pensar só na arquitetura, tem de pensar nas pessoas. O cara sai do seu condomínio fechado, entra no carro, vai à Sala São Paulo, estaciona o carro, entra no espetáculo cheio de seguranças, sai, entra no carro e volta para casa. Não tem restaurante, café, nada. O cidadão precisa ocupar a calçada, isso está reprimido dentro da gente. Quando a calçada voltar a ser usada, São Paulo vai ser outra."

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