Os quatro lados do voto

Estudo divide eleitorado em 4 grupos e revela: a maioria vota mesmo sem ser obrigada

, O Estado de S.Paulo

13 de setembro de 2010 | 00h00

A multidão de 135 milhões de eleitores que vai às urnas daqui a 20 dias constitui um universo novo, múltiplo, desafiador. Não há mais grotões, ou o seu peso é desprezível: vivem em cidades 83% da população do País. O eleitor está mais pragmático. Conhece bem o valor de seu voto, aprendeu a exigir benefícios em troca dele e não cai facilmente em promessas irrealizáveis. E, como revelou recentemente uma sondagem nacional, a multidão gosta de eleição. Uma importante maioria, de 62%, avisa que está disposta a votar mesmo que não seja mais obrigada por lei - contra 36% que disseram o contrário. Dez anos atrás, esse entusiasmo por urnas não ia além dos 48%. A maioria, 51%, informava que, podendo escolher, não votaria.

Esse cenário se desenha nas 48 páginas do relatório Cenário Eleitoral 2010: Mudanças e Continuidades do Brasil Pós-Lula, que valeu à sua autora, Márcia Cavallari, do Ibope Inteligência, um prêmio internacional em maio passado. A cereja do bolo do trabalho é uma tipologia do eleitorado, misto de condição cultural, econômica, familiar, perfil moral e inclinações políticas que Márcia dividiu em quatro grupos. Deu-lhes os nomes de "apegados", "meu governo, minha vida", "livres e antenados" e "cada cabeça uma sentença".

Para chegar aos quatro ela organizou um pacote de pesquisas qualitativas, em dez grandes cidades brasileiras, e cruzou seus resultados com dados disponíveis, do IBGE e outras fontes. "Analisamos a demografia, a vida familiar, os valores morais, a inserção da mulher no mercado de trabalho, a melhoria na informação", diz a autora sobre o documento, considerado o melhor apresentado no Congresso do World Public Opinion Research, em Chicago.

"Há sinais de que a democracia brasileira está se tornando madura e a cultura política está se tornando mais democrática, interessada e participativa", diz o documento. Márcia menciona quatro razões: amadurecimento decorrente de seguidas eleições desde 1989, maior acesso à informação, a percepção de maior transparência - entendida como resultado das denúncias sobre escândalos e corrupção - e, por fim, a descoberta de que suas escolhas eleitorais podem ter um impacto para melhorar suas vidas.

Mas essa evolução do eleitor, adverte o relatório, é notada nas eleições executivas (prefeito, governador, presidente) mas não, ainda, nas disputas proporcionais - para vereador, deputado ou senador. "Nas questões legislativas, o eleitor mostra-se mais conivente e até acha normal que um eleito nomeie parentes para cargos públicos".

Um dos eixos da pesquisa foi a divisão do eleitorado em tendências dominantes - que Márcia montou a partir de questionários tomados da World Value Survey, do Latinobarómetro e de incontáveis discussões de grupo. Neles foram abordados temas como nacionalismo, religião, valores familiares, democracia e igualdade, visão do futuro. Um pacote de 89 frases foi submetido aos grupos, para comentários. O resultado, ela adverte, é incompleto - pois há "outros elementos que motivam as atitudes e que não foram capturados". Mas foi possível montar quatro grandes "grupos atitudinais":

1. Os apegados. São um grupo mais conservador, moralista, tradicionalista, em grande parte evangélico e que vive no interior. Desapontados com a política, seus integrantes chegam a 19% do total do eleitorado e constituem, de certo modo, um residual dos grotões. Neste universo está a maior fatia dos que não votariam se não fossem obrigados.

2. Meu governo, minha vida. Estes admitem, e aprovam, sua dependência do governo. Também conservadores, mas orgulhosos do País, otimistas com seu futuro e satisfeitos com a vida que levam. Representam 24% do eleitorado, valorizam a honestidade e em sua maioria querem a continuidade das atuais políticas. Constituem o fulcro dos apoiadores das políticas do atual governo.

3. Livres e antenados. É o universo dos yuppies, intelectuais, solteiros. Modernos, formados em valores materialistas, gostam do prazer, defendem a liberdade individual e detestam o autoritarismo. Aprovam mais facilmente as mudanças e se sentem envolvidos com muitos assuntos públicos. Podem, no atual cenário, ser hoje tucanos e amanhã petistas. Somam 21% e seriam, politicamente, os menos influenciados pela atual política do governo.

4. Cada cabeça, uma sentença. Individualistas, liberais, adeptos da "Lei de Gerson". Ao contrário do primeiro grupo, que não quer saber de política, e do segundo, com pendores patrióticos, formam um grupo avesso ao discurso nacionalista. Não se comprometem com nada e em tudo à sua volta buscam seu interesse direto. Constituem a maior parcela, 36% do total, e lembram, genericamente, a chamada maioria silenciosa. Está neste grupo a tendência mais forte ao voto nulo ou branco.

O grupo 2 é o mais interessado na campanha eleitoral, seguido pelo grupo 3 - o que não ocorre com o 1 e o 4. É mínima (entre 18% e 20%), nos quatro grupos, a fatia dos que aceitariam participar de um protesto para mudar as coisas.

A coordenadora do Ibope chama a atenção, no trabalho, para o fator demográfico: a população com mais de 65 anos cresceu 65% nos últimos 15 anos, o triplo da média do País. "Tínhamos um país jovem, que agora começa a envelhecer", diz ela. Assim, vamos perdendo o chamado bônus demográfico - ter mais gente contribuindo para a Previdência do que aposentados recebendo. "Como essa vantagem diminui a cada ano, é preciso aproveitar a fase para poupar e garantir o futuro", adverte. "Mais algum tempo e a ordem se inverte." / G. M.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.