Os transtornos causados pela crise aérea

Os atrasos em vôos registrados nos principais aeroportos do País desde terça-feira, 5, além de causarem irritação nos passageiros também provocou transtornos na vida de pelo menos duas crianças.O garoto Gabriel Barbosa Machado, de 1 ano e 1 mês, perdeu de chance de fazer um transplante de fígado devido a demora na chegada do órgão a São Paulo. Na fila do transplante , o menino conseguiu na última terça-feira, 5, o órgão compatível com seu tipo sanguíneo. Gabriel tinha operação marcada para as 13h30, horário em que o órgão vindo de São José do Rio Preto aterrissaria em São Paulo.Porém, após atraso de mais de 5 horas, a cirurgia que transplantaria o órgão em Gabriel foi cancelada. Assim, o garoto voltou para a fila com 3.915 pacientes no aguardo de um fígado em São Paulo.O médico Fábio Crescentini, da equipe do Hospital Beneficência Portuguesa que trouxe o órgão, explica que o fígado pode ser usado dentro de 12 horas, em média, mas quanto maior a espera, maior o risco. "O Gabriel poderia morrer ou ter de passar por segundo transplante, que tem taxa de sucesso reduzida de 85% para 50%", disse Crescentini. O médico criticou o transporte de órgãos no Brasil. "Temos 4 mil km e ficamos à mercê dos horários das companhias que fazem o transporte gratuito. Precisamos de avião particular."De acordo com nova lei federal, pacientes mais graves vão para o topo da fila. É o caso de Gabriel. Seus 13 meses de vida são passados de hospital em hospital, com intervalos "nunca maiores do que 15 dias", segundo disse a mãe Joseane, baiana de 16 anos que saiu de um bairro pobre da cidade de Lauro de Freitas em busca de tratamento para o filho.Seja qual for a espera por um transplante, ele não tem esse tempo. "Não sabemos quanto ele pode esperar. Três meses? Pode ser até que a doença se agrave. Depende de não surgirem obstáculos, uma infecção ou sangramento, problemas que ele já enfrenta", disse Vera Baggio Danesi, hepatologista da equipe de transplante do Hospital do Câncer.A médica se diz frustrada. "Pode aparecer doador e o paciente não ter condições para a cirurgia. Na terça-feira, tudo estava certo", disse. "Uma chance perdida num cenário como o do Brasil, onde há poucas doações, doadores mal preparados e notificações tardias sobre órgãos."Segundo o cirurgião Fábio Crescentini, da equipe do Hospital Beneficência Portuguesa que trouxe o órgão, entre 25% e 50% dos pacientes morrem antes do transplante de fígado. A Secretaria de Estado da Saúde informou que hospitais receptores podem alugar jatos particulares quando as distâncias foram superiores a 100 km, para transporte de coração e pulmão, e 300 km, para fígado e pâncreas. "Mas isso custa R$ 8 mil e o reembolso leva seis meses. É inviável", disse o médico.Jéssica, esquecida no aeroportoO sonho de Jéssica Portilho, de dez anos, em passar as férias de final de ano com a mãe em Tomé-Açu, no interior do Pará, acabou se transformando em trinta horas de pesadelo entre terça, 5, e quarta-feira, 6, no aeroporto de Brasília. A menina mora com uma tia e deveria ter embarcado sozinha às 11 horas de terça-feira pela Gol, mas uma falha no sistema de comunicação do Centro Integrado de Defesa Aérea e Controle de Tráfego Aéreo (Cindacta-1), em Brasília, adiou a viagem dela para a tarde de quarta-feira.A família, que aguardava a chegada de Jéssica no aeroporto de Belém no começo da tarde de terça-feira, entrou em pânico. Ninguém sabia o que tinha acontecido. Antonia Portilho, tia da garota, acusa a Gol de não avisar os familiares sobre o cancelamento do vôo para Belém. A única informação passada pela empresa, ainda na terça-feira, era de que Jéssica teria sido levada para um hotel juntamente com outras crianças aos cuidados de um responsável.Não era verdade. A garota havia permanecido o tempo todo no aeroporto. Os parentes ficaram revoltados quando souberam, mais tarde, por uma funcionária da Gol, que a companhia só havia conseguido vaga para hospedar a criança num motel, mas descartou por considerar o local impróprio.A chegada da menina em Belém, depois de tanto sofrimento dos familiares, foi um alívio. "Fiquei sentada o tempo todo na sala de embarque. O meu avião nunca chegava", contou Jéssica, que recebeu da Gol dois vales de R$ 15,00 para lanche. Também reclamou ter ficado no aeroporto por quase dois dias sem tomar banho. Ela dormia numa cadeira da sala de embarque. "Encontrei outra menina que também não tinha embarcado e ficamos juntas", revelou.Jéssica chorou ao falar com a mãe pelo telefone ainda no aeroporto de Belém. A mãe tinha viajado para Tomé-Açu antes de a filha chegar. "Nós ficamos desesperadas. Isso nunca tinha acontecido antes, mas o pior de tudo foi o comportamento da Gol, que não dava qualquer satisfação", desabafou Antonia. A falta de contato da companhia com familiares da menina foi confirmada por Maria Bernadete, a tia residente em Brasília. A família já decidiu: nas próximas férias, a criança viajará para Belém de ônibus. De avião, nunca mais.Produtores de flores Por trabalharem com um produto frágil, delicado e extremamente perecível, os produtores de flores do Ceará, que dependem dos aviões para chegar ao consumidor final, no caso, os europeus, também têm sofrido com o apagão aéreo. Nesta quinta-feira, 7, um vôo que sairia para Amsterdã, um dos principais destinos das flores tropicais cearenses, foi cancelado.Até agora, a produtora Silvânia Nuto, dona da Flora Tropical, não teve problemas em atender ao mercado externo. Ela exporta semanalmente 60 caixas de flores e folhagens para Portugal. "Felizmente, parece que não está havendo problema com este vôo para Lisboa. Mas não sei até quando. Meu temor é que essa confusão toda nos vôos nacionais acabe afetando os internacionais", comentou.Silvânia também compra flores e rosas de outros Estados para revendê-las em uma loja que mantém na capital cearense. Uma carga que era para ter chegado na quarta, 6, de São Paulo, só chegou nesta quinta, 7. "Um dia de atraso para um produto tão perecível como o nosso é um prejuízo enorme. Principalmente neste mês, cujo movimento é grande na floricultura por conta das festas de final de ano", completou.

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