Ailton Cruz/Estadão
Ailton Cruz/Estadão

Outro bairro de Maceió tem rachaduras; afundamento afeta área com mais de 40 mil moradores

Casas de Bom Parto começaram a apresentar fissuras há 4 meses; situação atinge outros três bairros, em área com mais de 40 mil pessoas

Paula Felix, O Estado de S.Paulo

26 de setembro de 2019 | 22h52

A prefeitura de Maceió incluiu nesta semana mais um bairro no decreto de calamidade pública declarado após registros de rachaduras e afundamentos em três bairros da capital - Pinheiro, Mutange e Bebedouro. O decreto, que foi renovado por mais seis meses, foi publicado na edição desta quarta-feira, 25, do Diário Oficial do Município. Segundo moradores, fissuras começaram a aparecer em imóveis do bairro Bom Parto há cerca de quatro meses e ao menos 300 imóveis apresentam a situação. Conforme a gestão municipal, mais de 40 mil pessoas são afetadas pelo afundamento desses bairros.

A prefeitura informou que a população atingida pela instabilidade no solo do bairro Bom Parto ainda está sendo contabilizada e que estudos para determinar quais ações serão adotadas estão sendo feitos. "Os trabalhos relativos ao Bom Parto serão divulgados após a análise final pela CPRM (Serviço Geológico do Brasil) dos trabalhos realizados pelos técnicos da Defesa Civil, assim como as medidas necessárias com relação à população do bairro. O bairro inteiro do Bom Parto tem em torno 30 mil moradores e apenas parte da área estaria sendo afetada pela instabilidade de solo. Os dados da população afetadas só poderão ser previstos após o relatório final dos estudos."

Atualmente, 2.047 famílias afetadas pelo problema estão recebendo auxílio-moradia, segundo a prefeitura. Moradores do Mutange, bairro que apresenta a situação mais grave, devem ser realocados para unidades habitacionais do Minha Casa Minha Vida assim que a transferência for autorizada pelo governo federal. O Serviço Geológico do Brasil informou que esteve na capital alagoana entre os dias 17 e 20 e equipes elaboram um relatório sobre a situação. Os profissionais também fizeram um treinamento de capacitação com agentes do município para que eles possam acompanhar os fenômenos que estão afetando os bairros.

Presidente da Associação Comunitária e Beneficente dos Moradores do bairro Bom Parto, Fernando Lima diz que o problema começou há cerca de quatro meses e avançou rapidamente. "Os moradores começaram a solicitar a nossa presença. Acionamos a Defesa Civil, visitamos as casas e foi detectado que, em 33 casas, havia rachaduras não convencionais. Foi estourando mais e, de três meses para cá, acelerou de tal forma que tem cerca de 300 casas nessa situação. E esse número tende a crescer."

Lima explica que, ao contrário do Pinheiro,um bairro nobre, os moradores do Bom Parto têm dificuldades financeiras e muitos não têm condições de ir para outro lugar. "A gente já estava acompanhando a situação nos outros bairros. Agora, estamos sentindo na pele dentro da nossa comunidade. No Mutange, existe uma situação social de penúria. Imagina aqui, na beira da lagoa, com casas de taipa e sem piso. É muito pior do que no Mutange. Aqui, as pessoas são paupérrimas. No Pinheiro, são casas de valores altíssimos."

Rachaduras começaram em fevereiro de 2018

Em fevereiro do ano passado, após fortes chuvas, rachaduras começaram a aparecer em dezenas de imóveis do bairro do Pinheiro. Em 3 de março, foi registrado um abalo sísmico no local.   Em maio deste ano, o Serviço Geológico do Brasil (CPRM) divulgou um relatório informando que a extração de sal-gema - matéria-prima utilizada na fabricação de soda cáustica e PVC - feita pela Braskem foi a principal causa para o surgimento de rachaduras nos bairros do Pinheiro, Bebedouro e Mutange. Em nota, de julho de 2019, a empresa informou que o documento apresenta "inconsistências técnicas relevantes e a falta de uma solução definitiva que garanta a segurança aos moradores dos bairros afetados" e disse que tem realizado "estudos para identificar as causas dos problemas geológicos e tomado ações emergenciais na região".

Em nota, a Braskem disse que "instituições de estudo geológico e especialistas do Brasil e do exterior, como a Universidade de Houston, e um novo estudo de pesquisadores coordenados pelo renomado professor-doutor em geologia Georg R. Sadowski, apontam inconsistências de metodologias usadas na elaboração do Relatório Síntese da CPRM para explicar os fenômenos geológicos dos bairros Pinheiro, Mutange e Bebedouro, em Maceió". Ainda conforme a empresa, isso comprova que as pesquisas precisam ser aprofundadas para definir as causas e as soluções para os bairros". A Braskem ainda destacou ter "compromisso com as pessoas de Alagoas" e "sua atuação responsável".

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