GUILLAUME SOUVANT / AFP
GUILLAUME SOUVANT / AFP

Padre e bispo franceses são levados a julgamento em caso de pedofilia

Religioso Pierre de Castelet admitiu ter cometido crimes sexuais a “entre cinco e dez crianças” em 1993, durante acampamento juvenil de verão; “Não sabia que era errado”, justificou

Andrei Netto, CORRESPONDENTE

31 de outubro de 2018 | 19h41

PARIS - O Ministério Público da França solicitou nesta quarta-feira, 31, a prisão fechada ao abade Pierre de Castelet e ao ex-bispo de Orleans, monsenhor André Fort, por crimes de pedofilia e de omissão de denúncia, respectivamente. A decisão foi anunciada alguns dias depois de a Conferência dos Bispos da França (CEF) ter admitido, em Lourdes, que terá de enfrentar a “dolorosa questão" dos abusos sexuais no interior da Igreja. A decisão aumenta para dez o número de clérigos denunciados à Justiça, dos quais quatro já encarcerados. 

O caso do padre Pierre de Castelet é um dos mais rumorosos envolvendo crimes sexuais cometidos por religiosos católicos no país. Os fatos que embasam o julgamento aconteceram em julho de 1993, em Arthez-d’Asson, na região dos Pirineus, sul da França e fronteira com a Espanha. Em um campo de verão do Movimento Eucarístico dos Jovens (MEJ), pelo menos três crianças sofreram agressões sexuais do padre, sob o pretexto de realizar exames médicos.

A denúncia foi feita 17 anos depois por uma das vítimas, Olivier Savignac, em uma carta enviada a André Fort, que ocupou o cargo de bispo de Orleans entre 2002 e 2010. A denúncia, porém, jamais foi levada ao conhecimento da polícia, do Ministério Público ou da Justiça. Castelet continuou a atuar e só foi afastado de suas funções um ano depois – 18 anos após os primeiros casos conhecidos –, por ordem do monsenhor Jacques Blaquart, que substituiu Fort no posto de bispo de Orleans e denunciou o caso à Procuradoria de Justiça.

O atual julgamento envolve três homens, Olivier Savignac, de 38, Philippe Cottin, de 37, e Paul-Benoît Wendling, de 36 anos, as primeiras vítimas a denunciar o caso.

Em seu depoimento de ontem, Castelet, hoje com 69 anos, reconheceu as agressões sexuais, mas classificou seus atos como “uma derrapada”. “Eu estava precisando de afeição. Estava isolado e muito cansado. Não sabia que era errado, não sabia que estava fazendo mal às crianças”, justificou, dizendo-se arrependido. “Eu não deveria tê-lo feito. Tinha o desejo de me aproximar deles e a necessidade de proximidade afetiva."

Segundo o padre, o caso envolve “de cinco a dez crianças”, todos restritos a 1993. A procuradoria definiu o caso como “um exemplo tristemente clássico de pedofilia”. “Outros Pierre de Castelet, frustrados sexuais, estão sendo julgados em vários tribunais. Mas um bispo levado a julgamento acontecerá apenas pela segunda vez desde a ocupação nazista”, explicou o procurador do caso, Nicolas Bessone.  

Alegando problemas de saúde, o bispo Fort não compareceu ao julgamento desta quarta. O veredicto sobre os réus será conhecido em 22 de novembro. Se forem condenados, Castelet poderá pegar até três anos e seis meses de prisão, enquanto Fort pode pegar um ano em regime fechado.

O caso de Arthez-d’Asson ilustra a pressão crescente da pressão que a opinião pública vem fazendo sobre as autoridades públicas e a Igreja em razão dos crimes sexuais cometidos por católicos na França. Entre 2017 e 2018, o número de denúncias contra religiosos se multiplicou por seis em relação ao período entre 2010 e 2016.

Análise: Gilles Lapouge

Todos os anos, no início de novembro, os 118 bispos católicos franceses reúnem-se em Lourdes, cidade reverenciada desde o aparecimento da Virgem Maria no século XIX ante uma pastora, Bernadette Soubirous, consagrada como santa desde então. Os debates deste ano serão dominados pela questão dos padres pedófilos, porque a Igreja da França afinal enfrenta corajosamente essa tragédia, com um pequeno atraso em relação a outras igrejas, aquelas dos Estados Unidos, da Alemanha e do Chile.

Por acaso, esta reunião é realizada na sequência de uma decisão judicial sem precedentes na França: um bispo, monsenhor Frot, levado à justiça em Orleans por não alertar nem seus superiores hierárquicos ou nem a justiça sobre ou comportamento de um de seus sacerdotes. O promotor atacou com força: exigiu um ano de prisão, com o seguinte comentário: “Este julgamento deve funcionar como um choque elétrico”.

É claro que a igreja da França não pode mais (ou não quer mais) se refugiar no silêncio. Os casos de pedofilia eram frequente demais e generalizados demais, (221 relatos entre janeiro de 2017 e outubro de 2018) “para continuar tranquilamente sem mudar de caminho”, sem ouvir a angústia e os soluços de crianças que foram massacrados já há 30 anos, por um adulto desfrutando de sua “autoridade sagrada” para satisfazer seus desejos.

É preciso tomar medidas, portanto, contra este flagelo. Isso significa escutar as histórias nunca ouvidas e às vezes jamais expressas pelas vítimas. Hoje a fala se libera. Séphane Escleff, pároco em Belleville, um distrito popular de Paris, entrevistado por jornalistas, começa nos tranquilizando: “Não, nem todos os padres são pedófilos”. Finalmente, uma boa notícia. Mas para aqueles que são, o que fazer? “Faremos um dossiê”, disse o padre, como um desejo de uma resposta oficial. E ele nos dá essa resposta oficial: “Oremos”. É realmente uma boa ideia. No entanto, o padre de Belleville quer ir ainda mais longe: “Não devemos parar por aí. É um trabalho de libertação que é feito em meio à dor. Um parto”.

Outro padre de Paris nos dá sua própria experiência. É verdade que antes de se tornar padre ele foi juiz por dezesseis anos, de modo que as revelações sobre as vítimas de certos sacerdotes despertam lembranças terríveis em sua memória. “As lembranças me mandam de volta”, diz ele, “para os rostos de vítimas, às vezes destruídas definitivamente, casos de abuso sexual que eu acompanhei. A discrepância entre o ideal do sacerdote que serve a vida e todos esses impulsos de destruição e morte nos levam a um grande mal-estar e a uma sensação de nojo”.

Diante desses fatos e desses testemunhos, qual será a resposta dos 118 bispos da França? Nós saberemos daqui a alguns dias. Ao mesmo tempo, saberemos se o “choque elétrico” desejado pelo promotor de Orléans durante o julgamento de um bispo, Monsenhor Frot, que nem compareceu à audiência (ele sofre de câncer) terá os efeitos esperados. /Tradução de Claudia Bozzo

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.