JF Diório
JF Diório

Padre Marcelo dá entrevista descontraída

Apesar da figura simpática, da fala mansa e do sorriso constante, estar ao lado do Padre Marcelo Rossi é intimidador. Grandalhão, com 1,95 m de altura, antes da vida eclesiástica, ele costumava amedrontar aqueles que tentavam paquerar suas irmãs ou sua namorada. Hoje, sua influência é outra, mas igualmente convincente, como conta na conversa que teve com o JT. Aos 44 anos, Padre Marcelo fala do lançamento de seu novo disco, Ágape Musical, da construção de um santuário com capacidade para 100 mil pessoas e, curiosamente, debateu sobre calvície.

Pedro Antunes, Jornal da Tarde

26 Setembro 2011 | 11h10

 

O disco é a continuação do projeto que começou com o livro ‘Ágape’ (Ed. Globo), do ano passado?

Tudo começa com isso aqui (aponta para sua bengala). Começou assim: em abril do ano passado, recebi a notícia de que o papa havia me nomeado ‘evangelizador moderno’. Três dias depois, corria na esteira a 9km/h, ouvindo U2, vacilei e caí. Rompi ligamentos da perna direita. Fiquei chateado, porque não poderia ir à entrega, que seria em outubro. Entrei numa crise pessoal. Porque aquilo era, com todo carinho, um cala-boca ao que fizeram comigo e com o Padre Jonas quando o papa veio ao Brasil (em 2007, para a canonização de Frei Galvão).

 

O que aconteceu na época?

Nos escalaram para o Campo de Marte (zona norte de SP), num frio, e com credencial errada. Tivemos de esperar do lado de fora. Não pude ir ao Pacaembu, com os jovens, (onde o papa estava), que teria mais a ver comigo. Não aconteceu. Sinceramente, só consigo ver isso como ciúme.

 

E o disco, então, é uma continuação do livro, num projeto maior?

Sim. Hoje, já passamos dos 6 milhões de cópias vendidas do livro. O CD veio seguindo isso. Mostrei as músicas para o Guto Graça Melo (produtor) e para a Sony. Em uma semana, o disco vendeu 430 mil cópias. Quem comprou o livro vai comprar o disco também. Sendo pessimista, serão 2 milhões vendidos até 2012.

 

E para onde vai o dinheiro?

Eu não recebo nada. Todo o dinheiro arrecadado vai para o Santuário Mãe de Deus, que estou construindo, na zona sul, para 100 mil pessoas. Ele será aberto no dia 1º de dezembro, quando completo 17 anos de padre.

 

Não teme a pirataria?

Pirataria é crime. Quem é cristão não vai comprar produto pirata, porque é pecado. Futuramente, vou lançar um karaokê e, depois, vem um audiolivro.

 

O senhor se considera uma vítima do próprio sucesso?

Eu pago um alto preço. É difícil sair na rua, ir a um restaurante. Você vai comer e as pessoas não esperam nem você terminar (antes de abordá-lo). Desisti. Não adianta. Eu sofri com isso em 1999 e 2000.

 

Mas o senhor saía muito antes?

Eu não era de sair pra balada por causa da ginástica (era professor de educação física antes do sacerdócio). A namorada reclamava. Mas ia muito ao cinema. Gosto muito de filmes de artes marciais.

 

Sério? Tipo Steven Seagal?

Sim, lutei hapkidô, aikidô, judô. Gosto muito do Jet Li. Adoro os filmes dele. Assisti a O Beijo do Dragão (2001) dez vezes. Tem uma ótima história, fala da inocência, mas tem violência.

 

Mas o senhor era briguento?

Vai me mandar matar uma barata (risos). Não brigava, não. Era só o modo de falar, que já impõe respeito. Eu pesava 130 quilos, era forte, impunha respeito.

 

E hoje? Se mexem com a sua irmã, por exemplo, o que faz?

Eu digo: “Meu irmão, não faça isso ou terei que rezar um terço por você”. E aí, você pega pelo pescoço da pessoa com jeitinho. Antes, quando eu saía para caminhar na praia com a minha irmã, ela pedia para que eu me afastasse, eu assustava. Hoje em dia, não saímos sozinhos, para evitar os comentários. Hoje, qualquer coisa errada se espalha muito rápido.

 

Quando jovem, fazia muita “coisa errada”, era mulherengo?

Nossa, pelo contrário. A minha namorada era ciumenta, não deixava. Mas se você usar a palavra narcisista, eu diria que sim.

 

Hoje, pratica algum esporte?

Agora, eu estou em fase de fisioterapia, né? Não tenho levantado muito peso, porque incho demais e começam a achar que estou gordo (risos). A corrida vicia, leva à produção de hormônios que causam bem-estar. Um vício do bem.

 

O que o senhor acha do rótulo de ‘padre celebridade’?

Eu sou padre, não tenho vergonha disso. Eu poderia tirar essa roupa, mas não. Em casa, eu me visto assim. Quando eu vou para a rua, já chamo a atenção pela altura. Todo mundo me reconhece.

 

Outro famoso é o padre Fábio de Melo. O que acha dele?

Não concordo com ele. Sempre falei isso. Quero que ele seja feliz, mas acho que ele nos expõe, fala besteiras desnecessárias para algumas meninas nos shows.

 

É outro rótulo: o de ‘padre galã’.

Falei disso pra ele uma vez. Como não tive uma resposta positiva, eu respeito, deixo que ele seja abençoado. Ele faz outro tipo de trabalho, cobra cachê. Eu não faço isso.

 

Mas e os seus shows?

Chamam de ‘showmissa’, mas não é. Trata-se de uma missa e depois tem o louvor. Não tem cachê.

 

Imagino que existam fãs suas também animadinhas, não?

Sim, isso acontece. Outro dia, estava fazendo uma dedicatória quando chegou uma menina de uns 20 anos, me pedindo em casamento.

 

Era bonita?

Morena, as minhas namoradas eram loiras. Ela chegou e me pediu em casamento. Era uma brincadeira, sem maldade. Mas, às vezes, eu vejo uma má intenção.

 

Má intenção?

É que para mim o celibato não é um sacrifício, é uma oferta, tenho isso na cabeça. Eu já vivi do outro lado, sei quando uma pessoa olha com outra intenção. Eu trato bem, mas me afasto.

 

Ser um exemplo não cansa?

Sinceramente? Quando eu estava perto dos 40 anos, não aguentava mais. Foi um período crítico. Depois, eu foquei nessa missão, não sei o quanto eu tenho de vida.

 

O senhor tem medo de morrer?

Sim e não. Você reza para morrer?

 

Pra morrer? Não…Já rezou alguma vez a Ave Maria?

Algumas vezes, talvez. “Rogai por nós pecadores, agora e na hora de nossa morte”, diz o fim da oração. Então, se estiver na graça de Deus, não tenho medo. Mas precisamos de cuidado. Hoje, eu não tenho medo de morrer. Amanhã, não sei.

 

O senhor chegou aos 44 anos. Os exames estão em dia?

Está tudo ok. A única coisa que não está é o gástrico. Não posso mais tomar remédio, de tanto que eu já tomei. Hoje, só tomo finasterida, porque comecei a ficar calvo. Dá tempo para você, viu? Percebi que já tem algumas entradas.

 

Ouviu só, Diório (fotógrafo do Grupo Estado)? Ele tá chamando a gente de careca.

Mas dá para ver que o cabelo começou a ficar ralo. Eu estava ficando igual a você. Comecei a tomar o remédio e até começaram a falar que tinha feito implante.

 

O problema são os efeitos colaterais, como a impotência, padre.

Esse problema eu não tenho (risos). Se você não tomar, vai ficar careca.

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