Pai de João Roberto diz que ainda acredita na Justiça

PM acusado de atirar contra o carro da família foi absolvido no Tribunal de Júri na quarta a noite

Clarissa Thomé, O Estado de S.Paulo

11 de dezembro de 2008 | 19h03

O pai do garoto João Roberto, o taxista Paulo Roberto Soares, apesar de revoltado, disse que confia na Justiça. O promotor do caso, Paulo Rangel, informou que o Ministério Público vai recorrer da decisão que absolveu o policial militar William de Paula. "Não podemos aceitar o que aconteceu. É um absurdo dizer que a pessoa estava no cumprimento do dever. Matar uma criança de 3 anos, quase matar minha mulher e meu outro filho e sair daqui impune, estar nas ruas de novo, isso não pode acontecer. Acredito até o final na Justiça", afirmou.   Veja também: Promotor fala que decisão foi desrespeitosa com a sociedade  Decisão dá 'carta branca' para PM matar, diz promotor do Rio PM é absolvido no caso João Roberto Todas as notícias sobre o caso      Por quatro votos a três, o 2.º Tribunal do Júri entendeu que o cabo da PM, que atirou no carro em que estava o menino João Roberto, em julho passado, agiu no "estrito cumprimento do dever legal". Ao acatar a tese da defesa, os jurados o absolveram do crime de homicídio duplamente qualificado (com uso de arma de fogo e sem chance de defesa). Ele foi condenado a prestar sete horas diárias de serviços comunitários, durante um ano, por lesão corporal leve à mãe de João, Alessandra Amorim Soares, ferida por estilhaços, e ao irmão, Vinícius, que teve lesão no ouvido.   A decisão revoltou parentes e amigos do menino. "Estou chocada. Meu filho morreu em vão. Houve dolo (intenção). Ficou comprovado que houve dolo. (Para os jurados) Ele (o PM)cumpriu o dever dele: matou o meu filho", reagiu Alessandra, chorando muito.   O advogado Nilo Batista, que atuou como assistente da acusação, classificou a decisão do corpo de jurados, composto por uma mulher e seis homens, de "monstruosa". "Eles estabeleceram que existe uma pena de morte para o roubo de carros e que deve ser cumprida pelo PM que estiver mais próximo".   O advogado João Tancredo, que também foi assistente da acusação, lembrou que a decisão dos jurados foi contrária às provas dos autos. "A balística mostrou que o carro de Alessandra recebeu 17 tiros, que dois vinham do fuzil desse cabo. Ele diz que atirou no carro dela, confundindo com o veículo dos criminosos. O absurdo é que o júri não nega os fatos, mas acredita que ele agiu no estrito cumprimento do dever legal. É dizer às tropas: pode matar à vontade".   Paulo Roberto disse que sempre se sentiu "acalentado" pelas pessoas, que se solidarizaram ao longo de cinco meses. "Fiquei estarrecido porque a sociedade absolveu o algoz do João Roberto", afirmou. "As pessoas devem se perguntar: e se fosse comigo? Essas pessoas (os PMs) não estão lá para nos defender, mas para nos executar".   Tanto a promotoria quanto a defesa recorreram da decisão. O advogado do PM, Maurício Neville, não concordou com a condenação pelo juiz Paulo Valdez por lesão corporal (os jurados só decidem sobre crime contra a vida). "O crime menor não pode se sobrepor ao crime maior", afirmou. Para Neville, os jurados entenderam que o cabo não quis matar João Roberto nem atirar contra a família. "Ele está aliviado. Voltou para casa agora à tarde, para os filhos. Ele é pai de três crianças, a mais velha é cega. Ele é um pai de família", disse.

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