Pai de juiz assassinado pede um basta ao crime organizado

Uma hora antes do enterro de Alexandre Martins de Castro Filho, na tarde desta terça-feira, o pai do juiz assassinado, Alexandre Martins de Castro, fez um desabafo e, cobrando providências, criticou: ?Os governantes, as autoridades têm permitido que a criminalidade escape ao controle, é hora de dar um basta!?O advogado pediu que, além dos executores do crime, também o mandante fosse encontrado, mas demonstrou certo ceticismo em relação à elucidação completa do crime. ?O importante é saber que quem atirou foi a extensão da mão de quem mandou e, às vezes, é difícil chegar em quem mandou. Às vezes é notório?, disse o advogado, que não quis apontar suspeitos.Ele confessou que teme por colegas e parentes do filho assassinado. ?Não houve ameaça à família, mas não sei onde pode parar. Todos podem correr risco?, afirmou. Pela terceira vez, Alexandre Martins de Castro voltou ao mesmo túmulo do cemitério de Inhaúma, na zona norte do Rio, para acompanhar o enterro de um parente próximo.Em 1986, a mulher do advogado, Regina, aos 42 anos, morreu em um acidente de trânsito. Regina deixou os filhos Renata, então com 13 anos, e Alexandre, com 16. Em 1994, Renata, aos 20 anos, morreu em outro acidente e foi enterrada no mesmo lugar. Nesta terça, para o sepultamento de Alexandre Castro Filho, de 32 anos, foram à Capela Santa Isabel, onde o corpo foi velado, e ao cemitério cerca de 200 pessoas, entre parentes, juízes, promotores e ex-colegas da faculdade de Direito da Universidade Gama Filho, indignados com a ousadia dos assassinos.Um forte esquema de segurança foi montado por policiais federais, civis e militares, que trabalharam dentro e fora da capela e do cemitério. Nenhuma autoridade federal foi ao enterro do juiz assassinado. O corpo de Alexandre chegou ao Comando Regional da Aeronáutica, vindo de Vitória, às 10h40, e foi levado no alto de um carro do Corpo de Bombeiros, seguido por um cortejo, até Inhaúma.Policiais militares espalharam-se por todo o trajeto, principalmente ao longo da Linha Vermelha. Embora tenha dito que ?desabou? com a morte do filho, o pai não se negou a falar sobre o crime e exibiu um grande painel com a foto de Alexandre Filho e a inscrição: ?Não vamos nos intimidar!? A frase foi dita pelo juiz em uma entrevista, na semana passada. ?Este aqui é uma vítima, com 32 anos, que merecia viver, que tinha o direito de viver e que deu a vida talvez para que todos nós possamos viver melhor?, disse o pai do juiz, comovendo os que acompanhavam o velório.Chorando o tempo todo, amparada pelos pais, a namorada do juiz, Letícia Serrão, estudante de Direito, que mora em Vitória, viajou para o Rio para acompanhar o sepultamento. O advogado confirmou que o filho vinha recebendo ameaças, mas disse que o juiz duvidava de qualquer ação do crime contra ele. ?Meu filho não acreditava que alguém pudesse fazer tamanha covardia com ele. Ele estava recebendo ameaça de morte, estava se protegendo da forma que podia, mas não acreditava que fosse acontecer de uma forma tão brutal, tão covarde.?Ao cumprimentar o coordenador da Justiça Estadual da Associação de Magistrados Brasileiros (AMB), Rodrigo Tolentino de Carvalho Collaço, Alexandre Martins de Castro de novo desabafou: ?Tem que haver tolerância zero. Depois, o governante vem aqui dar tapinha no ombro...?Pouco antes da saída do corpo para o cemitério, às 13h30, chegaram à capela o governador do Espírito Santo, Paulo Hartung, e, em seguida, o secretário estadual de Segurança Pública do Rio de Janeiro, coronel Josias Quintal. Hartung disse que a polícia provavelmente anunciaria ainda na tarde desta terça o nome do mandante do crime e pregou a cooperação entre as polícias para o combate ao crime. ?Parece óbvio, mas se o crime é organizado, tem poder, tem dinheiro, o Estado precisa se organizar. Muitas vezes nossas políticas estão em disputa por questões de vaidade?, afirmou. Quintal disse esperar que o crime sirva de ?motivação? para que as autoridades federais ?reajam a esta situação?.O ex-ministro da Justiça Paulo de Tarso Ribeiro afirmou que, entre julho e dezembro do ano passado, o juiz esteve sob proteção da Polícia Federal. ?O doutor Alexandre é um mártir, um herói, o que se pode fazer por ele é tornar realidade os ideais pelos quais ele morreu?, disse o ex-ministro.No Tribunal de Justiça do Rio, começaram a vigorar nesta terça-feira medidas de proteção aos magistrados, apressadas por conta da morte do juiz Castro Filho. Das seis portas do prédio, no centro da cidade, duas foram fechadas. O policiamento em torno do fórum - por onde passam 50 mil pessoas diariamente - foi reforçado com 60 policiais. À tarde, representantes da comissão formada para elaborar um plano de segurança para o Judiciário participaram da reunião do comitê gestor de segurança do Estado, na Superintendência de Polícia Federal. Josias Quintal disse estar "absolutamente certo de que o Judiciário no Rio está seguro". Veja o especial:

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