Pai do menino Bernardo nega crime diante de detector de mentiras

Polícia Civil e Ministério Público consideraram 'sem crédito' a gravação; diálogo será encaminhado à Justiça

Elder Ogliari, O Estado de S. Paulo

02 de junho de 2014 | 23h28

PORTO ALEGRE - Colhida como subsídio da defesa, a conversa do médico Leandro Boldrini com o técnico em veracidade Mauro Nadvorny, diante de um detector de mentiras, dentro da Penitenciária de Alta Segurança de Charqueadas (Pasc), foi considerado "sem crédito" pela Polícia Civil e pelo Ministério Público do Rio Grande do Sul.

O diálogo foi gravado na quarta-feira da semana passada e a conclusão de que o médico disse a verdade ao proclamar que não tramou a morte do filho, o menino Bernardo Boldrini, de 11 anos, será encaminhada nesta semana à Justiça de Três Passos pelo advogado de defesa, Jader Marques. Como não recebeu o material ainda, o juiz Marcos Luiz Agostini não se manifestou.

Trechos da conversa de Boldrini e Nadvorny diante do detector de mentiras foram obtidos pela RBS TV e divulgados nos programas Fantástico, da Rede Globo, na noite de domingo, e Jornal do Almoço, da emissora regional, nesta segunda-feira. Neles o médico diz que é inocente e repete que não foi o mentor do crime, não sabia do plano da madrasta, não financiou Graciele, não emitiu receita de midazolam (substância encontrada no corpo do garoto) e classifica o ato da mulher como "covarde". Pede, ao final, que ela "assuma a culpa por inteiro". Em depoimentos dados à polícia, Graciele inocentou o médico, mas não conseguiu livrá-lo da acusação feita pela polícia e Ministério Público.

A oferta à Justiça de uma conversa travada diante de um detector de mentiras, feita pela defesa, foi colocada sob suspeita pela investigação. O inspetor Demétrio Peixoto, perito em veracidade do Gabinete de Inteligência da Polícia Civil, responsável pelo uso do único detector de mentiras da corporação, diz que o equipamento consegue determinar quase 100% das situações em que o entrevistado fala a verdade e 95% das que fala mentiras. Mas estranha que tanto Boldrini quanto Graciele e Edelvânia tenham se recusado a se submeter ao detector durante o inquérito que investigou o caso. "Para nós fica gritante que oficialmente não quiseram se submeter ao detector e agora não sabemos como surge uma oferta à Justiça de material colhido por iniciativa particular", comenta. "Como não faz sentido, para nós é caso de descrédito".

A Polícia Civil gaúcha usou seu detector de mentiras em 11 casos em 2012, 34 em 2013 e 30 casos até agora, em 2014, quase sempre em investigações de estupros, abuso sexual, homicídios e desaparecimentos. O software registra situações em que a pessoa sofre estresse, altera pensamento e demonstra imprecisões incomuns a quem está falando a verdade. 

O Ministério Público entende que o detector é um instrumento que ajuda a polícia em suas investigações, mas não recorre ao equipamento porque os resultados não são reconhecidos como provas. Segundo o subprocurador-geral de Justiça para Assuntos Institucionais, Marcelo Lemos Dornelles, a entrevista de Boldrini com o técnico em veracidade não tem valor nenhum para o caso Bernardo Boldrini. O órgão entende que, como a entrevista foi feita em âmbito privado, as perguntas e respostas podem ter sido combinadas, assim como o tom da voz do médico, que permaneceu o mesmo ao longo da fala.

O advogado Jader Marques destaca que a própria polícia reconhece a credibilidade do teste e que o resultado ficará à disposição para ser analisado. Também diz que só foi comunicado por SMS, a título de sondagem, da intenção da polícia de submeter Leandro ao detector de mentiras durante o inquérito. "Não houve negativa nossa", sustenta. "Não existiu nenhum tipo de intimação e nem designação de data, apenas uma comunicação precária", afirma, referindo-se ao recado recebido via telefone e à falta de uma comunicação formal.

Caso. O corpo de Bernardo foi encontrado em Frederico Westphalen, a 80 quilômetros da casa da família, que fica em Três Passos, no dia 14 de abril. Depois da investigação policial, o Ministério Público denunciou e a Justiça abriu processo contra o médico, pai do garoto, a enfermeira Graciele Ugulini, madrasta, e a assistente social Edelvânia Wirganovicz por elaboração, participação e execução de um plano para matar o garoto com intenções de assegurar bens materiais e financeiros que ele herdaria da mãe, Odilaine Uglione, que se suicidou em 2010. 

O motorista Evandro Wirganovicz, irmão de Edelvânia, também é réu, acusado de ajudar a ocultar o cadáver. Leandro, Graciele e Edelvânia estão presos preventivamente, por tempo indeterminado. Evandro está preso temporariamente até 10 de junho.

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