Pai rouba avião e morre com a filha ao cair em shopping de Goiânia

Acusado de estupro, ele agrediu a mulher e sequestrou a menina; antes da queda, afirmou que ia se matar

Rodrigo Brancatelli e Vitor Hugo Brandalise, O Estadao de S.Paulo

13 de março de 2009 | 00h00

Uma tragédia familiar terminou na tarde de ontem com um acidente aéreo que poderia ter tomado proporções de catástrofe. Suspeito de ter cometido um estupro na última segunda-feira, o desempregado Kleber Barbosa da Silva, de 31 anos, sequestrou, às 16h15, um avião monomotor prefixo PT-VFI e o derrubou duas horas depois no estacionamento de um shopping center de Goiânia (GO), causando a sua morte e a de sua filha, Penélope Barbosa Correia, de 5 anos. Horas antes, Silva já havia tentado matar sua mulher, a dona de casa Erica Correia, ferindo sua cabeça com um extintor de incêndio e a jogando do carro em movimento.Em três contatos diferentes feitos pelo rádio do monomotor, entre 17h37 e 17h55, Silva repetiu que iria se matar e causar uma tragédia. "Ele queria provocar uma tragédia de dimensões maiores, provocar vítimas no shopping também. Alguém que quer se matar não procura um lugar movimentado assim para jogar um avião", disse ao Estado o delegado Jorge Moreira, da Delegacia de Homicídios de Goiânia. Há também a hipótese de que o combustível do avião tenha acabado, o que será investigado.O monomotor foi roubado do aeroclube de Brasília (em Luziânia, a 58 km da capital federal), principal local de testes para pilotos no Centro-Oeste. Silva, no entanto, não tinha brevê. Não se sabe como ele sabia pilotar. Segundo o boletim de ocorrência registrado na cidade de Luziânia pelo responsável legal pelo aeroclube, Horst Artur Guerra Gerhard Hoffmani, Silva pediu para fazer um voo panorâmico com a filha. Hoffmani chegou a iniciar o taxiamento na pista, mas foi interrompido por Silva, que sacou uma arma, falou que era um assalto e pediu que o piloto parasse a aeronave e descesse. Silva falou: "Já matei uma pessoa hoje e não custa matar você também."Antes do roubo, Silva viajava em um Vectra branco na BR-153, que liga Brasília a Bela Vista (MS), quando, por volta das 13 horas, agrediu a mãe da menina com um extintor, provocando ferimentos profundos na cabeça, e a jogou para fora do carro, ainda em movimento. Ainda não se sabe o motivo da briga. Às 13h30, uma ambulância encontrou a mulher na beira da estrada e a socorreu, levando-a para o Hospital de Urgências de Goiânia (Hugo), onde estava consciente na noite de ontem. Embora perguntasse constantemente sobre o paradeiro da filha, até o final da noite de ontem Erica não havia sido informada sobre a tragédia.ESCOLTADe acordo com a Polícia Militar de Goiás, a aeronave pilotada por Silva sobrevoou o espaço aéreo da capital por duas horas. A Força Aérea Brasileira informou que o monomotor foi acompanhado por um Mirage 2000, por um helicóptero da PM e, posteriormente, por um avião T-27 Tucano - segundo testemunhas, ele foi visto dando rasantes em diversos pontos de Goiânia, como a região de Santa Genoveva, e próximo de outro shopping, o Buriti, em Aparecida de Goiânia. Silva também deu rasantes no Hospital de Urgências de Goiânia, onde a sogra e a cunhada trabalham, e em um prédio no Setor Pedro Ludovico, onde mora uma prima da mulher. Na queda, no estacionamento do Shopping Flamboyant, a 10 metros de uma de suas entradas, o avião bateu em duas árvores, danificou 23 carros e acabou sob uma caminhonete. Ninguém no local ficou ferido.O administrador de sistemas Wendelson Paulo Diniz, de 34 anos, havia acabado de pagar o tíquete de estacionamento quando viu o monomotor sobrevoando o shopping, o maior da capital goiana. "Ele estava muito baixo", conta. "Achei até que ia bater direto no prédio do shopping. Aí, de repente, o avião caiu de bico."As cerca de 5 mil pessoas que estavam no shopping foram impedidas de sair, pois havia risco de explosão. Houve princípio de pânico e várias pessoas chegaram a se machucar nas escadas de emergências. A Infraero informou que a aeronave não partiu de um aeroporto controlado pela empresa. O Aeroporto Santa Genoveva, na capital goiana, ficou fechado das 18h10 às 19h14 - pelo menos três voos que partiriam do local foram cancelados. COLABORARAM ANDRÉA BORDINHÃO, DIEGO ZANCHETTA e BRUNO PAES MANSO

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