Pais contratam detetives para seguir os filhos

Desconfiança em relação a companhias ou baladas leva ao serviço; resultados chegam a surpreender

Camilla Haddad, O Estadao de S.Paulo

14 de setembro de 2008 | 00h00

Espionar a mulher ou o marido para descobrir uma possível traição ainda é uma das principais missões dos detetives, mas, na capital paulista, dobrou a procura desses profissionais por pais desesperados em saber os passos dos filhos com idades entre 15 e 17 anos. São várias as preocupações com os adolescentes, a maioria de classe média: consumo de drogas, namorado novo, amigos e até saber se o filho é homossexual. O diretor da Central Única Federal dos Detetives do Brasil (CUFDB), Edilmar Lima, garante que houve uma mudança significativa nos últimos cinco anos quando se fala no perfil dos clientes. "No ano de 2003, 40% dos clientes investigavam suspeita de infidelidade. Em 2008, 30% procuram investigar os filhos."Em Brasília, onde Lima trabalha, grande parte dos pais de classe média alta não gosta que seus filhos andem com pessoas que fazem parte de grupos de tribos urbanas, como emos e darks. "Não é por discriminar, mas por acharem que isso influencia de alguma forma a educação do adolescente." A CUDFB estima que no Brasil existem mais de 120 mil detetives. Só no Estado de São Paulo, há mais de 15 mil.A detetive Angela Bekeredjian conta que, em 2007, atendeu cinco clientes desconfiados das atitudes dos filhos em São Paulo. Neste ano, o número subiu para 15 pessoas. Angela credita o aumento às mudanças de comportamento dos jovens. "Hoje em dia, o adolescente não tem tanto vínculo com a família, se tranca no quarto, fica recluso e se torna agressivo quando incomodado."A espiã afirma que a orientação de mães e pais é para ela observar os adolescentes no momento em que eles estão se divertindo nas baladas, sobretudo nas casas noturnas. Segundo ela, as "perseguições" duram em média sete dias, com possibilidade de prorrogação. Nesse período, o que mais se flagra são jovens tomando ecstasy e fumando maconha. "Eles bebem vinho, cerveja, depois litros de água e no fim chegam a um esgotamento crucial e puxam fumo, chegam a cheirar cocaína..."Também há casos inusitados e um tanto constrangedores. "Um casal pediu para eu descobrir se o filho de 16 anos era gay. Com a autorização da mulher, coloquei escutas na casa. Só que, além de confirmar que o rapaz era homossexual, descobri que o pai também era." A detetive foi mais além. Soube, ainda, que o "namorado" do pai era o irmão da cliente. "Imagina a cena. A mulher ficou arrasada."Especializado em desvendar episódios de infidelidade, o detetive "Falcão" também confirma um aumento na demanda de pais como clientes. O profissional entende que isso ocorre por causa do surgimento de novas baladas em São Paulo. Outro fato, segundo ele, é que o pai, às vezes, se separa da mulher e não está presente em casa, enquanto a mãe tem de sair bastante. "Falta carinho e atenção."Falcão costuma "ficar na cola" dos adolescentes por 20 dias no máximo. "Fazemos filmagens, fotografias e depois o relatório final." De acordo com o especialistas, em 90% dos casos as suspeitas dos pais se confirmam, principalmente quando o assunto é drogas. "As más companhias ajudam."PEDOFILIARicardo Silva, detetive há 19 anos, comenta que, dos casos que atendeu até o momento, 60% das campanas terminam com a confirmação de um comportamento inadequado do adolescente. "Eu vejo o uso de drogas com certa freqüência, mas tem filhos que se envolvem com marginais e há até vítimas de pedofilia."

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