Pais de menina que caiu do 5º andar são soltos e irão a enterro

Sepultamento de Rita de Cássia foi adiado para hoje, para que eles pudessem comparecer

Clarissa Thomé, O Estadao de S.Paulo

14 Julho 2009 | 00h00

A Justiça do Rio concedeu na manhã de ontem liberdade provisória para os pais da menina Rita de Cássia Rodrigues de Sena, de 5 anos, que morreu ao cair da janela do apartamento da família no 5º andar, na noite de sábado. O contador Gilson Rodrigues de Sena, de 51 anos, e a professora Fátima Rodrigues Edvirges Sena, de 50, deixaram a carceragem no início da tarde. A família decidiu adiar o enterro da menina para a manhã de hoje, no Cemitério de Irajá - o sepultamento estava marcado para a tarde de ontem. O casal foi preso em flagrante por abandono de incapaz, seguido de morte, a pedido da delegada Adriana Belém, da 25ª Delegacia de Polícia (Engenho Novo). A pena para esse tipo de delito varia de 4 a 12 anos de prisão. Para a delegada, ficou claro que o casal não jogou a criança pela janela. "Eles foram autuados pela conduta prevista na lei penal como abandono de incapaz. É importante salientar que essa conduta por si só já constitui delito, independentemente de morte ou lesão corporal. É preciso que os pais tenham isso em mente. É uma conduta autônoma. É inconcebível deixar um filho de 5 anos sozinho em um apartamento", afirmou a delegada, em entrevista ao RJTV. A advogada do casal, Fátima Pandolpho, fundamentou o pedido da liberdade provisória na ausência de culpa dos pais da criança. "Foi uma fatalidade. Eles estão sofridos, traumatizados, em estado de choque." O casal estava com as duas filhas, Rita e Camila, de 14 anos, que está grávida, numa festa caipira no condomínio, em Tompas Coelho, na zona norte. Rita disse que estava com sono e pediu para dormir. A criança foi deixada no apartamento pela mãe, que voltou para recomendar à filha mais velha que não tomasse chuva. Rita de Cássia ficou sozinha em casa por 19 minutos. Nesse período, lançou objetos pela janela da área de serviço, que estava com a rede de proteção rompida, por causa de um acidente doméstico com ferro de passar roupa. As imagens do circuito interno do prédio mostram que Rita jogou uma mochila e um edredom na área externa, antes de cair. ABSURDO O pediatra Lauro Monteiro Filho, coordenador do Observatório da Infância, considerou um "absurdo" a prisão em flagrante dos pais, mas afirmou que a tragédia deve servir de alerta. "Esse casal já foi suficientemente punido, mas os pais devem ficar atentos. Essa é uma nítida situação de negligência. Não é acidente, porque acidente é inevitável. Em nenhuma hipótese, uma criança pode ficar sozinha em casa", disse. Monteiro Filho foi pediatra por 35 anos do Hospital Municipal Souza Aguiar e criou um grupo de pesquisa para investigar acidentes envolvendo crianças. "É muito grande o número de pacientes atendidos que sofreram ferimentos ou queimaduras por negligência. Talvez umas das situações de negligência dos pais com consequências mais graves seja o abandono de crianças sozinhas em casa", afirmou. MATURIDADE Para o pediatra, não há idade considerada "segura" para se deixar crianças sozinhas. "Sempre vai depender do desenvolvimento e da maturidade de cada uma. Não saberia dizer em que idade ela teria responsabilidade para ficar só, mas posso dizer que pai é para a vida inteira. Tem de vigiar sempre."

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