Pais devem orientar filhos sobre corpo desde cedo

Para especialistas, é preciso estar atento a alterações comportamentais e explicar limite entre carinho e abuso

Adriana Carranca, O Estadao de S.Paulo

12 de março de 2009 | 00h00

Os recentes casos de pedofilia no País - como o da menina de 9 anos grávida do padrasto, em Pernambuco - provocam, além de muita polêmica, dúvidas entre os pais. Como prevenir algo semelhante? Como ensinar os filhos a identificar o comportamento estranho em pessoas familiares, já que muitas vezes o abusador é alguém próximo, sem que se tornem crianças paranoicas? De que forma alertá-los sobre como lidar com estranhos sem privá-los do convívio social? Há como identificar uma criança que sofreu abuso? É possível reconhecer um pedófilo? Como tratar o assunto dentro de casa?O Estado fez as perguntas a especialistas em violência sexual contra crianças. No que diz respeito à prevenção, além do controle natural de saber onde e com quem as crianças estão, conversar com os filhos é o melhor caminho. Como? "No banho, por exemplo, a mãe pode começar mostrando aos filhos, desde pequenos, o que são partes íntimas e ensiná-los a cuidar da própria higiene, deixando claro que é algo mesmo íntimo e só quem lida com essas partes são elas próprias. Qualquer dúvida, devem perguntar à mãe", diz a supervisora do Programa de Atendimento e Pesquisa em Violência (Prove), da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), Cecília Gross, especialista em psiquiatria infantil.O diálogo aberto é importante, porque, na maioria dos casos, o abusador é conhecido da criança. Como explicar, então, os limites entre o carinho natural de professores ou pais de amiguinhos e o que é anormal? "Seja claro: carinho é beijo no rosto, abraço e só", diz Cecília. SINAISA psicóloga Dalka Chaves de Almeida Ferrari, coordenadora do Centro de Referência às Vítimas de Violência, do Instituto Sedes Sapientiae, e autora de um manual de prevenção e identificação do abuso sexual (disponível no site www.sedes.org.br) dá algumas dicas: "Bebês reagem com estranhamento ou choro diante do abusador e sofrem alterações psicossomáticas como falta ou excesso de sono ou apetite, inquietação ou depressão repentina. As que já atingiram a fase da linguagem contam histórias de abusos, muitas vezes em terceira pessoa, desenham. Se é ouvida e estimulada a contar um segredo, ela se sente segura. "Mas cabe aos adultos perceber esse esforço", diz Dalka. Cecília, da Unifesp, alerta para o fato de que nem sempre a mudança de comportamento denuncia o abuso, mas qualquer acontecimento diferente na vida da criança. "No entanto, sempre vale a pena uma consulta ao pediatra e, excluídas as causas clínicas, procurar um especialista em comportamento." DENUNCIEEm janeiro e fevereiro, 4,7 mil denúncias de violência contra a criança foram feitas ao Disque 100, 31% delas relativas a abuso sexual, 35% a negligência e 34% a violência física e psicológica. Mas, apesar do disque-denúncia e de mais espaço na mídia, na estimativa de Dalka apenas 10% dos casos de abuso sexual contra crianças são denunciados. "Ainda existe um código de silêncio nas famílias, seja por vergonha ou culpa, e isso precisa ser quebrado. Os casos de abuso sexual de criança não são raros. São uma questão de saúde pública", diz Cecília.

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