Marcos Arcoverde/Estadão
Marcos Arcoverde/Estadão

Pais devem ter conversa embasada e sem julgamentos sobre sexo com os filhos

Especialistas recomendam ainda compartilhar as próprias experiências; disposição para ouvir é caminho para facilitar o processo

Paula Felix, O Estado de S.Paulo

06 de fevereiro de 2020 | 14h00

SÃO PAULO - O início da Semana Nacional de Prevenção da Gravidez na Adolescência, no último sábado, 1º, trouxe de volta a discussão sobre como abordar o tema com os jovens e muitos pais têm dúvidas sobre como falar com os adolescentes sobre o assunto.

O Estado ouviu especialistas que apontaram que uma conversa sem julgamentos, com embasamento e disposição para ouvir são caminhos para facilitar o processo e fazer com que os jovens estejam preparados ao decidir iniciar a vida sexual.

Coordenadora do Programa de Estudos em Sexualidade (ProSex) do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo (USP), Carmita Abdo diz que a educação sexual em casa é a melhor forma de oferecer informações sobre o tema de forma personalizada e de acordo com o grau de amadurecimento. Ela diz que o tema pode começar ser abordado ainda na infância.

"Se a educação sexual puder ser oferecida na família, deveria começar em tenra idade, com 3, 4 anos, que é quando as crianças começam a manifestar a sua curiosidade sobre temas sexuais. Uma resposta direta e concisa é melhor, porque a criança tem sua pergunta respondida. Não adianta dar respostas longas e além da pergunta, porque ela não tem como assimilar."

No entanto, segundo Carmita, estudos apontam que muitas famílias não se sentem confortáveis em abordar o tema, principalmente quando não receberam esse tipo de educação.

"Os pais, muitas vezes, não se sentem em condições e não sabem como lidar com a pergunta nem sabem qual resposta seria a melhor. Mas, hoje em dia, há sites e livros de especialistas que podem ser acessados para suprir essas dificuldades. Eles também podem acionar alguém próximo da criança, ainda da família, um tio que é professor ou uma tia médica, alguém que tenha facilidade para comentar sobre isso. Se não parecer fácil para a família, resta à escola fazer esse papel."

Carmita, que também é professora da Faculdade de Medicina da USP, explica que é necessário tempo para essa conversa, até para que os pais compreendam os anseios e dúvidas dos filhos.

"Falar sobre sexo apenas sobre o tema cuidado ou alerta acaba não sendo uma conversa produtiva. Não vai ser em uma conversa rápida. Os pais têm de ter tempo, disponibilidade e condições de assimilar essas dificuldades e oferecer alternativas."

Ela diz ainda que a conversa é uma oportunidade para observar se o jovem está se colocando em alguma situação de vulnerabilidade. "Às vezes, o menino não quer usar camisinha por medo de falhar ou a menina não quer perder o namorado. Todos esses aspectos estão no imaginário do adolescente. O pai e a mãe podem não se sentir bem com o que ouviram, mas devem aproveitar essa situação para cuidar de forma mais ampla do que está acontecendo."

Em campanha com o tema "Tudo tem seu tempo: adolescência primeiro, gravidez depois", lançada nesta segunda-feira, 3, o governo federal sugere a abstinência sexual como forma de evitar gravidez precoce.

Propor a abstinência, de acordo com Carmita, é algo que não apresenta eficácia. "Alertar que é interessante fazer sexo com responsabilidade é sempre muito bom. Em alguns casos, a abstinência é uma alternativa escolhida pelo adolescente, eles elegem que querem esperar porque não se sentem prontos. Nesse caso, é algo legítimo, mas não pode ser generalizado."

Pais devem entrar em consenso

Antes de iniciar as conversas sobre sexo com os filhos, os pais devem definir como o processo vai ocorrer. "Eles têm de conversar entre si, não sobre o que falar com o filho, mas qual o tipo de abordagem que vão fazer. Tenho a impressão de que a conversa entre pai e mãe pode facilitar a conversa entre pais e filhos. Essa conversa relaxa os dois. É importante que os pais não tenham discursos diferentes para não confundir os adolescentes", recomenda Miguel Perosa, professor do curso de Psicologia da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP).

Perosa, que é psicoterapeuta de adolescentes e adultos, diz que a conversa não vai incentivar os jovens a iniciar a vida sexual. "As pessoas precisam humanizar o sexo, colocá-lo como uma questão entre pessoas. O que dispara o sexo são os hormônios e não as conversas entre pais e filhos. Os pais têm, por obrigação, de aceitar o crescimento físico e a mudança hormonal dos filhos e ajudá-los a saber o que fazer com isso."

O especialista sugere ainda que os pais compartilhem suas experiências para mostrar que também já passaram pela mesma situação. "Primeiro, é não julgar. Os pais devem acolher. Depois, contar como foi a própria experiência em relação ao que está falando, como foi o começo na questão que o filho está colocando para mostrar que não é um juiz. É uma condição da aproximação."

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