Gabriela Bilo/Estadão
Gabriela Bilo/Estadão

País enfrenta epidemia de notícias falsas sobre febre amarela

Fake news têm afastado muita gente da imunização, a mais eficiente forma de prevenção contra a infecção

Roberta Jansen, O Estado de S.Paulo

09 Março 2018 | 03h00

RIO DE JANEIRO - Com os casos de febre amarela se multiplicando por todo o país, Aline (nome fictício), de 46 anos, tentava decidir se deveria ou não se vacinar. Foi quando recebeu, pelo Whatsapp, um áudio de uma suposta médica, que desaconselhava fortemente a vacina. A comerciante carioca não consegue lembrar o nome da médica, nem onde ela trabalha exatamente. Também não sabe dizer quem divulgou o áudio, que chegou via grupo da família. Ainda assim, a explicação bastou para que tomasse uma decisão – não tomar a vacina.

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“Não me vacinei nem vou me vacinar, é muito perigoso”, disse Aline. “No áudio, a médica explica que a vacina contra a febre amarela foi feita de qualquer jeito e é muito perigosa, que daqui a dez anos todas essas pessoas vão ter problemas por causa das reações. E eu vou tomar uma coisa dessas? Eu não!”

O Brasil enfrenta um dos piores surtos dos últimos tempos de febre amarela, com uma taxa de letalidade que beira 50% dos casos. Também lida com uma epidemia grave de notícias falsas, sem nenhuma base científica e de origem incerta, divulgadas pelas redes sociais. Elas têm afastado muita gente da imunização, a mais eficiente forma de prevenção contra a infecção.

De acordo com dados do Ministério da Saúde, de julho de 2017 a fevereiro de 2018 foram confirmados 723 casos de febre amarela no país, com 237 mortes. O maior número de ocorrências está concentrado na região Sudeste, em São Paulo, Minas e Rio.

Num primeiro momento, o aumento do número de casos levou a uma corrida caótica aos postos de vacinação. Com medo de que faltasse imunizante, o governo passou a oferecer doses fracionadas da vacina (que são capazes de proteger por oito anos). Pouco tempo depois, no entanto, o movimento foi muito reduzido, com vários postos de saúde vazios, sem filas e com doses de sobra. O medo da vacina é apontado como responsável pela debandada.

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“Estamos vendo notícias falsas sobre febre amarela se alastrando numa velocidade alarmante nas redes sociais”, afirmou o pesquisador da Fiocruz Igor Sacramento, do Laboratório de Saúde e Comunicação, que estuda o fenômeno das fake news na saúde.

Uma notícia falsa que circulou sobretudo no Whatsapp relacionava a vacina a casos de autismo – o que tampouco é verdadeiro. Também pelo Whatsapp foi disseminado o áudio da suposta médica falando sobre problemas renais. Há ainda uma notícia falsa feita supostamente com base em um estudo da Fiocruz. O texto diz que a vacina não seria capaz de imunizar contra a doença e remetia ao link do artigo da instituição – um texto mais longo, mas que não afirma que o imunizante não funciona. A Fiocruz divulgou texto desmentindo o boato e reafirmando a eficiência da vacina. 

“Essa disseminação pelo Whatsapp é particularmente complicada porque não temos como mapear o que está circulando”, atesta Sacramento. “E elas estão ficando mais sofisticadas, inclusive na forma, com cara de notícia verdadeira, com edição profissional, usando estudos verdadeiros como base.”

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No Facebook, mais fácil de mapear, há inclusive grupos contrários à vacinação de uma forma geral. Um deles reúne mais de dez mil seguidores e é inspirado em movimentos semelhantes que estão bem disseminados nos EUA e na Europa. “Nos EUA e na Europa esse movimento contrário às vacinas é mais organizado, inclusive politicamente, e tem uma adesão social mais ampla”, diz Sacramento. “Mas está crescendo muito no Brasil, sobretudo por meio das redes sociais.”

Na Ilha Grande, em Angra dos Reis, município mais afetado do Rio pela doença (foram 34 casos e 14 mortes confirmados até ontem), a vacinação foi afetada pelos boatos, pelo medo e a desinformação, como atesta o secretário de saúde local, Renan Vinícius Santos de Oliveira. “Teve gente que não quis se vacinar, por mais que tenhamos explicado, com medo de possíveis reações”, diz o secretário. “E teve uma família inteira, de veganos, que se recusou a tomar a vacina porque ela é cultivada em ovos.”

O último caso de febre amarela urbana – transmitida pelo mosquito Aedes aegypti – foi registrado em 1942. Desde então, o País teve apenas registros isolados de febre amarela silvestre, transmitida pelos mosquitos Haemagogus e Sabethes. Autoridades sanitárias temem que dada a disseminação da doença, o país volte a ter a transmissão urbana, o que seria um pesadelo do ponto de vista da saúde pública.

A vacina é usada no País desde 1937, sendo o principal instrumento para a erradicação da febre amarela urbana. Segundo especialistas, os efeitos colaterais da vacina são geralmente brandos, como dor de cabeça e febre baixa. Há casos em que os efeitos colaterais podem ser severos e até causar a morte. Mas isso só ocorreria em uma pessoa em um milhão. Ou seja o risco de não tomar a vacina e contrair uma doença grave é muito maior.

“Risco existe, como existe em remédios e até na comida: tudo tem risco potencial”, afirma a médica Mônica Levi, da diretoria da Sociedade Brasileira de Imunização e autora do livro “Vacinar, sim ou não?”. “Mas as vacinas são muito seguras, os eventos graves são raros e o número das pessoas salvas pelas vacinas é muito superior.”

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