Corpo de Bombeiros de MG/Divulgação
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‘País úmido, como o Brasil, não deveria ter barragem à montante’

Alto risco de infiltração é o maior problema; lógica do custo não pode definir modelo de construção, diz geofísico americano

Entrevista com

David Chambers, especialista em barragens da Universidade da Califórnia (EUA)

Roberta Jansen, O Estado de S.Paulo

08 de fevereiro de 2019 | 03h00

Especialista em barragens de mineração, o geofísico americano David Chambers, da Universidade da Califórnia (EUA), afirma que em países úmidos, como o Brasil, as barragens à montante não deveriam nunca ser utilizadas, por causa do alto risco de infiltração. Essa técnica de construção, mais barata e considerada insegura pelos engenheiros, foi utilizada para erguer as estruturas onde houve rompimentos: em Mariana (2015) e Brumadinho (em janeiro deste ano). 

“Já ficou demonstrado que esse tipo de barragem oferece nível inaceitável de risco de colapso nessas regiões.” Ao Estado, ele afirma que haverá mais acidentes, se a construção de barragens for guiada pela redução de custos.

O rompimento da barragem de Brumadinho é uma surpresa?

Não estou surpreso. E vamos ver mais desabamentos como esse no futuro, se grandes mudanças não forem feitas. O mais importante é que precisamos mudar essa lógica em que o custo determina o modelo e a operação da barragem de rejeitos. A lógica é diferente, por exemplo, nas hidrelétricas, em que a barragem é considerada um bem. Na mineração, é um custo que se tenta minimizar, não um investimento.

E essa lógica existe em países do mundo todo?

No mundo todo é assim. Não se trata de um problema do Brasil ou dos países em desenvolvimento. A parte surpreendente (da tragédia em Brumadinho) é que se tratava de uma mina que não estava em operação. E também o fato de o colapso ter sido aparentemente tão instantâneo. Mas até haver barragens mais seguras não é surpresa esse tipo de desastre.

É comum ter instalações da empresa bem abaixo da barragem, como em Brumadinho?

Normalmente vemos as pessoas trabalhando em instalações acima das barragens, não abaixo, por precaução. Mas isso reflete a confiança da Vale no sentido de achar que a estrutura não ia colapsar.

Os colapsos de barragens vêm aumentando?

Nossas pesquisas mostram que o porcentual de colapsos é o mesmo nas últimas cinco décadas. O problema é que agora temos mais minas do que havia algumas décadas e elas são muito maiores.

O que pode ser feito para elevar a segurança das barragens?

Não podemos trazer o custo para essa equação. A lógica não pode ser como construir uma barragem mais barata. Nos países de clima muito úmido, como o Brasil, as barragens à montante são muito problemáticas. São construídas sobre os próprios rejeitos e, para isso, é preciso partir de algumas premissas. No caso de clima tão úmido, pode haver muitas variações nessas premissas. As barragens à montante devem ser proibidas em países em que as precipitações excedem a evaporação, bem como em áreas de risco sísmico (no Chile, por exemplo, esse modelo já foi vetado). Já ficou demonstrado que esse tipo de barragem oferece nível inaceitável de risco de colapso nessas áreas.

 

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