Pais vigiam acampamento pela web

Colônias para crianças e adolescentes oferecem de fotos a imagens em tempo real dos filhos em atividades

Valéria França, O Estadao de S.Paulo

10 de janeiro de 2009 | 00h00

Pode até parecer neurose ou mesmo excesso de zelo, mas eles, os pais, estão cada vez mais cuidadosos na hora de decidir mandar os filhos para um acampamento de férias. Entre os quesitos fundamentais - como ser uma empresa idônea, com boa orientação pedagógica, instalações confortáveis e excelente comida - , exigem ferramentas que possibilitem vigiar a prole o tempo todo, mesmo a distância. Não por outro motivo, hoje, os acampamentos oferecem desde sites com jornais atualizados diariamente, com fotos da garotada nas atividades, até câmeras que transmitem em tempo real tudo que se passa por lá."Antes, o mundo não era tão violento e os pais não tinham à disposição tantas ferramentas de controle como hoje", explica Rodrigo Oehlmeyer, diretor do acampamento Eterna Amizade. "Começamos com um jornalzinho eletrônico, mas os pais ligavam reclamando que os filhos quase não apareciam ou que na foto não estavam sorrindo. Passamos a dar close e fazer vídeos das atividades." Em geral, os acampamentos têm programação tão intensa que as crianças acabam esquecendo até que estão longe de casa e dos pais. Elas passam o dia divididas entre gincanas, futebol, vôlei, brincadeiras na piscina e atividades de aventura, como arvorismo. "Quando minha mãe liga, eu falo rapidinho porque estou sempre brincando e não quero perder tempo", diz Ada Manoel, de 14 anos, que está fazendo as malas para mais uma temporada de férias. "A primeira vez que Ada acampou fiquei com o coração na mão", diz a mãe, Viviane, de 36 anos. "Telefonei todos os dias, mandei e-mails e assisti a tudo que passava no site do acampamento." Até que um dia, a filha escreveu que não estava com saudades e que ela não precisava mais ligar. "Fiquei decepcionada." Mesmo com a retaliação da filha, ela continua ligando, quando Ada vai acampar. "Eu tenho saudade. A casa fica muito vazia", explica. "Não gosto nem de ajudá-la a fazer as malas."Alguns acampamentos como o Eterna Amizade proíbe que as crianças levem celular. "Queremos que ela faça novas amizades. O celular atrapalha", diz Oehlmeyer. Mas, para os pais, acostumados a controlar os filhos pelo telefone na cidade, isso é mais um motivo de insegurança. "Mesmo com toda tecnologia que oferecemos, flagrei uma mãe dentro do acampamento, escondida atrás de uma árvore, vigiando o filho."No acampamento Estância Peralta, em Brotas, o celular foi proibido por questão de segurança. "O aparelho não é mais apenas um telefone, mas uma ferramenta multimídia", diz a proprietária Maria Pia Coimbra, de 67 anos. "Tenho medo, por exemplo, que uma das meninas seja fotografada no banho e que sua imagem vá parar na internet." Na sua quinta temporada no acampamento, Taísa Marques Figueiredo Luna, de 12 anos, explica que, quando quer ligar para sua mãe, vai ao orelhão, que fica à disposição de todos. "Também mando e-mail para os meus pais." Mesmo sabendo das regras, há pais que mandam celulares escondidos dentro da mala. "Mas as crianças brincam tanto que se esquecem do aparelho. Não ligam e não atendem. Daí, eles ficam mais preocupados", diz Maria. O Peralta chegou a instalar câmeras em quase todos os ambientes de atividades, como a piscina, o ginásio e o refeitório, para mandar imagens em tempo real para os pais. "Os adolescentes ficaram revoltados, achando que se tratava de uma invasão de privacidade." Para contentar pais e filhos, Maria deixou a câmera só no refeitório, que é ligada duas vezes ao dia, no jantar e no almoço. "Um dos objetivos do acampamentos é estimular a independência, novas amizades e o senso de responsabilidade dos acampantes", diz Ricardo Moraes, de 39 anos, gerente-geral do Paiol Grande. As crianças se submetem a regras, como arrumar o quarto, a mala e cumprir horários. "Hoje os pais são mais preocupados que antes." Há 60 anos, quando o Paiol começou não existia celular nem internet e a estrada que leva a seus alojamentos, em Campos do Jordão, era de terra. "Os pais encontraram também nesses recursos um jeito de participar da diversão de seus filhos", diz a psicóloga Lídia Aratangy, autora de livros de relacionamento entre pais e filhos. "Eu acompanho pelo computador minha filha ficando moreninha, brincando na piscina, sendo feliz", diz o bancário Henrique Frigo, de 29 anos, pai de Camila, de 7 anos. "Mandá-la para um acampamento é ficar longe, mas dar espaço para Camila fazer o que tem vontade, só que com a internet consigo ainda participar desse momento bom, o que me dá alegria."

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