Palanque não é urna

As dificuldades que os partidos governistas enfrentam com suas alianças regionais não representam necessariamente, e por si, prejuízos à candidatura Dilma Rousseff.

Dora Kramer, O Estado de S.Paulo

15 de abril de 2010 | 00h00

Uma coisa são as confusões que a candidata arruma, outra bem diferente são os acertos políticos locais sempre difíceis porque são várias correntes disputando o mesmo espaço.

Consta que os aliados de Dilma ainda não resolveram suas questões em 15 Estados, enquanto aos correligionários de José Serra só falta se acertarem em três.

Dito assim parece que na campanha governista reina a completa desordem e que na seara oposicionista impera a repentina ordem, contrariando a gritaria dos aliados de José Serra que até outro dia diziam que seria absolutamente impossível articular as alianças regionais se o então governador de São Paulo insistisse em ficar no cargo até o último dia permitido por lei.

Pois ele ficou, lançou-se candidato no dia 10 e o mundo não se acabou.

Tanto no governo quanto na oposição, as questões das alianças vêm sendo encaminhadas há algum tempo. Ocorre que, além de tudo acontecer em seu devido tempo, as situações são diferentes: na coalizão governista as coisas são bem mais complicadas de resolver.

Do lado do governo amontoam-se mais de dez partidos, todos com ambições referidas na máquina federal e, para complicar, os dois principais parceiros, PMDB e PT, se já viviam aos trancos e barrancos há anos, por mais razão se estranham agora quando o poder maior está em disputa.

Antes de prosseguir, convém registrar uma obviedade que Ulysses Guimarães gostava muito de repetir porque as pessoas parecem se esquecer: ninguém mora na União. Pois é: embora a representação de repercussão nacional se dê em Brasília, política se faz na província.

É nos Estados que os partidos definem suas forças, de lá é que poderão sair maiores ou menores em termos de governadores, deputados e senadores. Não que a Presidência da República seja mero detalhe. Mas o PMDB é o melhor exemplo de partido sem presidente e com poder porque é forte País afora.

Mas voltando à questão das alianças.

Os tucanos aparentemente estão com a vida ganha. Alianças ajeitadas, à exceção de três Estados, sendo um, o Rio de Janeiro, bem complicado. Mas, ao contrário do governo, contam com dois aliados, DEM e PPS, pacificados, a simpatia de parte do PSB, a adesão de alguma coisa do PMDB e mais o que sobrar em forma de lucro. O cenário é bem menos adverso.

Claro que o PSDB vai pôr o pé na estrada para ter muito mais. Assim como o governo trabalha para organizar os seus. Mas vamos que os acertos de Serra desandem e os aliados de Dilma resolvam brincar separados. É de se perguntar se isso influi realmente de maneira negativa na decisão do eleitor em relação à candidatura presidencial.

A julgar por eleições anteriores, depende muito mais do desempenho dos protagonistas. Quando estão eleitoralmente bem posicionados, são recebidos e disputados por todos, nada é obstáculo. Se vão mal, não há organização perfeita que dê jeito.

Para todos. Inicialmente marcada para o próximo dia 19, a viagem de José Serra a Minas pode ser transferida para 21 de abril, data dos 25 anos da morte de Tancredo Neves. Há tucanos convencidos de que seria o contraponto ideal à visita de Dilma Rousseff ao túmulo do avô de Aécio Neves.

O risco é a motivação soar algo indevida, com um quê de exploração alguns centímetros além da medida.

Mas há o outro lado: se não fizerem, os tucanos ficariam reféns da agenda da adversária.

Efeméride. A onda anual de invasões do MST denominada "abril vermelho" é tratada pelo poder público como parte do calendário nacional.

Da tolerância com a ilegalidade passou-se à cumplicidade, faltando apenas a inclusão na agenda de atrações turísticas internacionais para completar a chancela oficial.

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