Palocci, a difícil blindagem

Sabe-se agora a extensão da crise que trouxe a Brasília o ex-presidente Lula: mais cedo do que se esperava aconteceu - em alta voltagem - o curto-circuito na aliança PT/PMDB. E como protagonistas, nada mais, nada menos, que a presidente e o vice-presidente da República.

João Bosco Rabello, O Estado de S.Paulo

29 de maio de 2011 | 00h00

Artífice dessa aliança - que recusou no seu primeiro mandato, dando origem ao mensalão -, Lula veio ocupar o vácuo na articulação política do governo provocado pelas suspeitas de tráfico de influência na Casa Civil, que obstruíram a ação do seu titular, Antonio Palocci.

Não obstante despertar o Planalto de uma aparente inércia, o esforço do ex-presidente parece até aqui insuficiente para conter a hemorragia na Casa Civil. O governo entrou naquele estágio de aguardar os "fatos novos de cada dia" na esperança de preservar Palocci.

O problema é que não faltam "fatos novos" a desafiar a determinação de evitar a mudança ministerial - desde mais dados sobre os negócios do ministro-consultor até manifestações de incômodo dentro da base aliada com a sua prosperidade econômica não explicada.

É um filme já conhecido, inclusive com o próprio Palocci como ator principal. Como no episódio do caseiro Francenildo Pereira, cuja violação do sigilo bancário custou-lhe o cargo de ministro da Fazenda, Palocci passa a ter na defesa jurídica sua principal peça de apoio.

Porém, a linha escolhida pelo seu advogado, José Roberto Batochio, de blindar a caixa-preta dos negócios de seu cliente, tem o limite da eficiência jurídica e o efeito colateral de aumentar a crise política, por sinalizar temor com a investigação do Ministério Público.

Custo político

A defesa burocrática da presidente Dilma Rousseff, a declaração do governador da Bahia, Jaques Wagner (PT), de que a fortuna arrecadada por Palocci "é estranha", e a avaliação do senador Delcídio Amaral (PT-MT) de que a crise ainda está em ebulição, são sinais externos de que a preservação do ministro da Casa Civil está precificada. Dilma não distinguiu Palocci com manifestação de confiança pessoal, limitando-se a dizer que ele dará todas as explicações necessárias aos órgãos de controle do Estado. Uma senha para estabelecer que o custo político pode ter como limite o diagnóstico do ministério Público.

Erro de cálculo

O desconforto ao cumprir o ritual sugerido por Lula e o confronto com o vice-presidente Michel Temer indicaram para observadores que o silêncio da presidente Dilma Rousseff era menos por impotência e mais por aversão política. Dilma não estava alheia, mas determinada a enfrentar o PMDB. O erro foi escolher o Código Florestal, com uma maioria suprapartidária, para medir forças.

Enquanto isso...

A Polícia Federal ganhou mais 90 dias de prazo para concluir as investigações sobre a antecessora de Palocci na casa Civil, Erenice Guerra, que caiu sob a mesma acusação de tráfico de influência e também passou incólume pela Comissão de Ética do Planalto. A PF já colheu mais de 60 depoimentos e se debruça atualmente na análise dos HDs da ex-ministra e dos assessores Vinicius Castro e Stevan Knezevic, ligados ao seus filhos Israel e Saulo num suposto esquema de cobrança de propina a empresas interessadas em negócios com o governo.

Intrigante

Causou espécie aos senadores que escutaram suas explicações no almoço com a presidente Dilma Rousseff no Palácio da Alvorada, a revelação do ministro Antonio Palocci de que a sua empresa de consultoria atuou também na área de fusão de empresas.

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