Palocci não convence Dilma e fica em situação crítica após nova denúncia

Desgaste aumenta com informação de que ministro da Casa Civil aluga apartamento em São Paulo de empresa registrada em nome de laranjas; no bastidor, sua permanência é vista como 'insustentável' e já circulam nomes de eventuais sucessores

João Domingos, Leonencio Nossa e Julia Duailibi, O Estado de S.Paulo

05 de junho de 2011 | 00h00

O governo e setores do PT consideram que a situação do ministro Antonio Palocci (Casa Civil) acabou se agravando com as recentes declarações concedidas acerca de suas atividades como consultor. De acordo com integrantes do Palácio do Planalto, a presidente Dilma Rousseff estaria "desanimada" com o desempenho do ministro, o que tornaria a sua situação "insustentável".

A posição de Palocci no governo tornou-se ainda mais frágil após denúncia da revista Veja deste final de semana, segundo a qual o ministro pagava aluguel do apartamento onde vive a empresa que estaria em nome de laranjas (leia texto abaixo).

Na sexta-feira, o ministro concedeu entrevista ao Jornal Nacional para explicar as atividades da sua consultoria, a Projeto. Mas, segundo parlamentares da própria base governista, as declarações não foram convincentes.

Para interlocutores da presidente, Dilma teria comentado que Palocci ficou devendo respostas sobre os clientes da Projeto, que, segundo ele próprio, foram entre 20 e 25 empresas.

No Planalto já se fala que agora o governo deve entrar num clima de transição na área política. Antes mesmo da entrevista do titular da Casa Civil para tentar esclarecer suspeitas de enriquecimento ilícito, Dilma e auxiliares mais diretos avaliavam que o ministro não conseguiria reverter a sua situação pessoal nem a de engessamento do governo.

Já circulam no governo nomes para substituir Palocci, entre os quais o da diretora da Petrobrás Maria das Graças Foster, cujo perfil é considerado semelhante ao da presidente, quando era titular da Casa Civil no governo Luiz Inácio Lula da Silva. Dilma havia cogitado indicá-la para o posto na montagem do governo, mas acatou a sugestão de Lula, que queria Palocci na vaga.

O ministro Paulo Bernardo (Comunicações) também está na lista de cotados, principalmente em razão do seu bom trânsito no Congresso. Outro nome é do ministro da Saúde, Alexandre Padilha, responsável pela articulação política na gestão Lula.

Enquanto isso, o ministro Gilberto Carvalho (Secretaria-Geral) tenta ocupar parte do "vácuo" nas interlocuções do Planalto com a base aliada. Além do contato direto com Lula, Carvalho tem boa relação com dirigentes do PT contrários à permanência de Palocci, que reclamam da nomeação de aliados para cargos que disputam no governo.

Barulho. O secretário de Comunicação do PT, deputado André Vargas (PR), admitiu ontem que a revelação sobre o aluguel do apartamento de Palocci vai piorar a situação no Congresso. "A oposição é insaciável e é claro que fará muito barulho", disse. Segundo o líder do PMDB na Câmara, Henrique Eduardo Alves, Palocci deveria ter dado as explicações "10 ou 15 dias atrás". "Se especulou muito neste período".

Para o líder do governo na Câmara, Cândido Vaccarezza (PT), "os problemas da empresa são do Palocci, não do governo". "Ele deu explicações para quem é de direito. Eu não acho que o enriquecimento seja ilícito."

O vice-presidente, Michel Temer (PMDB), disse que, na entrevista ao JN, Palocci foi leal aos seus clientes. Ele evitou comentar as novas denúncias da Veja, mas disse acreditar que o ministro vai esclarecê-las.

"Ele veio a público dizer o que tinha de dizer, acho que ele foi muito convincente e teve muita lealdade profissional com seus clientes e com aqueles que serviu", destacou o vice, durante evento em São Paulo, em referência ao fato de Palocci não ter revelado o nome de seus clientes.

Questionado se o ministro permanecerá à frente da Casa Civil, Temer desconversou: "A presidente Dilma dispõe de todos os cargos e não deve ser eu a dizer o que deve ser feito." / COLABOROU WELLINGTON BAHNEMANN

PERGUNTAS SEM RESPOSTA

1. Para quais empresas prestou serviços?

Palocci se recusou, nas declarações, a revelar os nomes.

2. Qual foi o faturamento, ano a ano, da Projeto?

O ministro avisou que não falará sobre o assunto.

3. Por que o lucro da consultoria não corresponde aos valores de mercado?

Ele não quis opinar sobre as demais consultorias e quanto ganham dos clientes.

4. Como conciliava o trabalho de consultor com a atividade parlamentar?

Questão não foi levantada.

5. Dada as relações do então deputado Palocci com o governo Lula, como garantir que informações privilegiadas não foram repassadas aos clientes?

Outra questão não respondida.

6. Como era a bonificação pelos resultados obtidos?

Até agora, ele não detalhou.

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