Pane paralisa a telefonia fixa em SP

Segundo a Telefônica, falha humana de um prestador de serviços teria deixado aparelhos mudos por 6 horas

Vitor Hugo Brandalise, O Estadao de S.Paulo

10 de junho de 2009 | 00h00

Uma pane na rede de sinalização da Telefônica - formada por seis pontos de conexão no Estado, que servem como "ponte" para transmissão de informações - interrompeu parte do serviço de telefonia fixa em todas as regiões de São Paulo por pelo menos seis horas, entre a manhã e a tarde de ontem. O problema atingiu também, por períodos que duraram entre 20 e 50 minutos, o funcionamento de linhas de emergência da Polícia Militar (190), dos Bombeiros (193) e do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu, 192). A Telefônica informou, por meio de nota, que identificou uma "falha humana da equipe de um fornecedor que presta serviços na rede da empresa" como possível causa do problema.A pane impossibilitou parcialmente, entre 9 e 15 horas, ligações locais, de longa distância nacionais e internacionais, serviços de 0800, para call centers e chamadas para telefones celulares. Houve dificuldades para realizar e receber ligações, principalmente durante a manhã. Segundo a Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) - que abriu ontem procedimento para investigar as causas do problema -, toda a rede estadual teve falhas. Atualmente, segundo os registros da Anatel, a Telefônica é responsável por 11,5 milhões de pontos de telefonia fixa no Estado.Na capital, os problemas foram mais intensos na região central e na zona sul - áreas onde estão localizadas as centrais dos principais serviços de emergência. Entre 9h20 e 9h40, o Corpo de Bombeiros deixou de receber ligações - na estimativa da corporação, foram cerca de 300 chamadas efetivas perdidas. A Polícia Militar teve de transferir chamadas do número 190 de São Paulo para o Centro de Operações do ABC, em Santo André, entre 9h14 e 10h06. A média de chamadas recebidas em dias da semana, entre 9 e 10 horas, é de 700. "Não perdemos tudo porque conseguimos transferir para o ABC, mas é claro que houve ocorrências que não puderam ser atendidas", disse o major Marcos Rangel Torres, chefe do Centro de Operações da capital. Boa medida da extensão da pane pode ser verificada nos registros do Samu, principal serviço de socorro da capital. Entre 9h08 e 9h15, foram registradas nove chamadas - todas efetivas - para atendimento. Nos 27 minutos seguintes, entre 9h16 e 9h43, porém, nenhum outro telefonema pôde ser recebido. "Quando alguém não consegue ligar para o Samu, chama os bombeiros, polícia, procura alternativas. O problema é que hoje (ontem) o cidadão simplesmente não teve quem chamar", disse o coordenador da Central do Samu, Domingos Napoli.DESESPEROEntre quem procurou o Samu para informar emergência médica, duas palavras definem a pane nos telefones: "desespero" e "absurdo". Empregada doméstica num sobrado do Ipiranga, Maria das Graças Brito, de 34 anos, viu a patroa, a aposentada Lisete Rocha da Silva, de 70 anos, escorregar no primeiro dos seis degraus da escada de casa, bater a cabeça na parede e desmaiar. Imediatamente, ligou para o Samu. Linha ocupada. Depois, tentou os bombeiros. Não chamava. Por fim, 190, Polícia Militar - e nada.Por 15 minutos, a aposentada permaneceu no chão, desacordada - ao lado, um dos filhos segurava o telefone nas mãos. "Saí correndo até o posto de saúde e pedi para chamarem uma ambulância, mas nem eles conseguiam ligar. Até que, em algum momento, finalmente a linha chamou", conta Maria. "Mas minha patroa ficou desmaiada por bem mais tempo do que deveria. Já pensou se não conseguem chegar? Nem quero pensar no que aconteceria por causa de um problema da operadora." Lisete está internada, em observação, no Hospital São Camilo, no Ipiranga, e não corre risco de morte.Empregada de uma imobiliária no Morumbi, a atendente Sueli Soares, de 40 anos, presenciou uma batida entre dois veículos, na Rua Doutor Luís Migliano. Um menino que aparentava ter 10 anos tinha um corte na cabeça e sangrava muito. Mesma sequência, para todas as pessoas que passavam pelo local: Samu, polícia, bombeiros. "Ele ficou lá, deitado no banco de trás do carro, por uns 10 minutos. A mãe dele chorava muito e também se machucou. Até que a ambulância apareceu."Segundo a Secretaria Municipal da Saúde, ao menos 30 ocorrências efetivas - tais como as narradas acima - deixaram de ser atendidas. "Passei a manhã no telefone com a Telefônica, pedindo explicações. Nos sentimos reféns em situações como essa", afirma o coordenador do Samu, Domingos Napoli.Problemas ainda eram verificados no início da noite de ontem - especialmente em serviços de 0800. Em nota, a Telefônica afirmou que "está trabalhando para esclarecer completamente os eventos que ocasionaram o problema" e ressaltou que vai "cumprir a legislação vigente, até mesmo no ressarcimento aos usuários em decorrência dos problemas."

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