Claudio Peri/ EFE
Claudio Peri/ EFE

Papa diz em nova encíclica que 'vírus do individualismo' é mais difícil de derrotar

Em sua terceira encíclica, o pontífice argentino retoma temas sociais e reflete sobre um mundo atormentado pelas consequências da pandemia do novo coronavírus; Francisco citou Vinicius de Moraes no documento

Paulo Favero, O Estado de S.Paulo

04 de outubro de 2020 | 10h28
Atualizado 04 de outubro de 2020 | 20h07

No dia em que se comemora a festa litúrgica de São Francisco de Assis, o santo mais famoso da Igreja Católica, o papa Francisco publicou sua nova encíclica, intitulada "Fratelli tutti" (Todos irmãos). No documento de oito capítulos e 84 páginas (97 na versão em português), ele retoma as preocupações sociais e se opõe ao neoliberalismo. "A especulação financeira com a ganância fácil como fim fundamental segue causando estragos", adverte, reforçando que "o vírus do individualismo radical é o vírus mais difícil de derrotar".

A primeira encíclica publicada foi Lumen fidei (Luz da Fé), que havia sido iniciada por Bento XVI, seu antecessor. Essa publicação ainda não trazia o pensamento do papa Francisco, que ficou mais nítido na segunda publicação, de 2015. O Laudato si' (Louvado Seja) aborda a questão do aquecimento global e a degradação do meio ambiente. Teve um impacto muito forte e levantou um debate sobre o desmatamento da Floresta Amazônica. Agora, ele lançou sua mais nova encíclica, que cita o poeta e compositor brasileiro Vinicius de Moraes com um trecho de "Samba da Bênção" (leia mais abaixo).

Frei Dotto, assessor das pastorais sociais da CNBB (Confederação Nacional dos Bispos do Brasil), avisa que a nova encíclica é de certa forma continuidade das anteriores. "Em um primeiro momento podem estranhar poucas citações bíblicas, mas é uma encíclica social. É um pensamento que a gente está precisando para o contexto atual, momento dramático que a gente vive de pandemia, com muitas pessoas na pobreza", comenta.

Para ele, o papa pensa a política como um bem comum, que construa efetivamente a democracia, e mostra que é preciso reconstruir o tecido social, de relações muito frágeis. "Ele fala que a gente precisa estar de coração aberto para gestar um mundo mais aberto. Ele tem um olhar global, mas também particular, quando fala do bom samaritano. E trabalha muito por essa perspectiva para construirmos pontes. Ele fala que para sermos artesãos de paz precisamos fazer como quem faz tricô, é ponto por ponto se entrelaçando e construindo essa rede de paz, justiça e solidariedade."

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É um pensamento que a gente está precisando para o contexto atual, momento dramático que a gente vive de pandemia, com muitas pessoas na pobreza
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Frei Dotto, assessor das pastorais sociais da CNBB

Segundo Eduardo Brasileiro, educador e membro da Articulação Brasileira pela Economia de Francisco, essa nova encíclica coroa um processo e culmina nessa visão de São Francisco de Assis para a sociedade neste século 21. "Propõe a fraternidade como paradigma do novo pacto social, que vai implicar a economia e a política. Ele enxerga o diálogo como instrumento para promover a política e economia e entende que se isso não ocorrer vamos sucumbir enquanto sociedade, vamos morrer no processo civilizatório", diz.

Alguns trechos do documento reforçam essa visão do papa de que as desigualdades sociais são um grande problema no mundo atualmente. "É possível aceitar o desafio de sonhar e pensar em outra humanidade. É possível ansiar por um planeta que garanta terra, abrigo e trabalho para todos", explicou o papa. Na interpretação de Eduardo Brasileiro, Francisco está afirmando que a "economia não é para competição, acumulação e consumo, mas para o bem de todos".

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É possível ansiar por um planeta que garanta terra, abrigo e trabalho para todos
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Papa Francisco, na encíclica Fratelli tutti

O especialista lembra que a Igreja Católica sempre teve bons documentos sobre a sociedade, como o do papa Paulo VI, que fala sobre progresso e desenvolvimento social no mundo, e do papa João Paulo II, que fala sobre trabalho. Mas a grande diferença do papa Francisco para seus antecessores é que ele não apenas publica suas encíclicas, mas articula a discussão em torno dele. "Ele lança documento e articula fóruns e debates. Ele vai ouvir os movimento populares, como foi na Bolívia, em 2015, ou vai ouvir os refugiados. Ele faz o documento tornar-se um projeto."

O coordenador de projetos do Núcleo Fé e Cultura da PUC-SP, Francisco Borba Ribeiro Neto, teceu comentários sobre a encíclica para a Arquidiocese de São Paulo e destacou: "Fratelli tutti contrapõe o amor, que gera fraternidade e solidariedade, com o individualismo, gerador de exclusão, sofrimento e solidão. Mas será a fraternidade uma possibilidade real ou apenas uma ilusão bondosa? Esse é o grande desafio que a realidade apresenta à mensagem do Papa e à experiência concreta de todos nós, cristãos e pessoas de boa vontade."

Para o padre Ari Antônio dos Reis, pároco da Catedral de Passo Fundo, no documento Fratelli Tutti o papa "convida a olhar as relações com os seres humanos, a partir da compreensão de que todos somos filhos do mesmo pai, e vai sugerindo caminhos de sustentar as relações fraternas e não cair na tentação da intolerância ou violência. Tem também esse viés de reflexão", explica.

Para além do teor do documento, que serve para reflexão das pessoas, a encíclica também chega às pessoas em todos os cantos que a Igreja Católica está. "Ela é obrigada a debater um documento do papa. Então vai chegar na base, para que todos tenham acesso", comenta Eduardo Brasileiro, que será um dos 2 mil jovens que vão se encontrar em novembro do próximo ano com o papa em Assis (Itália) para discutir essa economia solidária. "A encíclica vem com uma série de práticas, coladas aos movimento sociais, que podem fomentar uma nova cultura política."

Vinicius de Moraes

Em um trecho em que abordou a construção de uma nova cultura a partir da convivência entre as diferentes faces da sociedade, o papa Francisco citou um trecho de "Samba da Bênção", do poeta e compositor Vinicius de Moraes: "A vida é a arte do encontro, embora haja tanto desencontro na vida". Ele destaca a necessidade de uma cultura do encontro "que supere as dialéticas que colocam um contra o outro".

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A vida não é brincadeira, amigo; A vida é arte do encontro embora haja tanto desencontro pela vida
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Vinicius de Moraes, Em 'Samba da Bênção'

"Isto implica incluir as periferias. Quem vive nelas tem outro ponto de vista, vê aspectos da realidade que não se descobrem a partir dos centros de poder onde se tomam as decisões mais determinantes."

Nova ética nas relações internacionais

Em sua encíclica mais social, após reiterar sua oposição à "cultura dos muros", o papa exorta uma nova ética nas relações internacionais.

"Uma sociedade fraternal será aquela que promova a educação para o diálogo a fim de derrotar o 'vírus do radicalismo individual' e permitir que todos deem o melhor de si", destaca. "O mundo de hoje é principalmente um mundo surdo", aponta o pontífice, que também pede uma reforma estrutural das Nações Unidas, reitera a total oposição da igreja à pena de morte e fala que a dívida externa dos países "deve ser paga, mas sem prejuízo ao crescimento e à subsistência dos países mais pobres."

Na encíclica, o papa defende o diálogo e a busca por novos caminhos para chegar à reconciliação entre os povos. "Não é possível decretar uma 'reconciliação geral' pretendendo fechar por decreto as feridas ou cobrir as injustiças com um manto de esquecimento."

O pontífice observa que muitos "ateus cumprem melhor a vontade de Deus do que muitos crentes", um tipo de advertência aos numerosos políticos em todos os continentes que se sentem "autorizados por sua fé a apoiar diversas formas de nacionalismos fechados e violentos, atitudes xenófobas, desprezo ou mesmo maus-tratos com os que são diferentes." / COM AFP

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