Riccardo de Luca/AP
Riccardo de Luca/AP

Papa adota tom mais enérgico em relação aos casos de pedofilia

Apesar da mudança de padrão na Igreja, pontífice vem nadando contra a corrente; nas dioceses locais da Itália às Filipinas, ele enfrenta a burocracia tenaz e letárgica que ainda comete alguns dos mesmos erros graves do passado

Anthony Faiola, The Washington Post

17 Março 2015 | 03h00

NÁPOLES - Diego era um garoto tímido nas aulas do padre Silverio Mura: com 13 anos de idade, pele cor de oliva e bonito, Diego passava seu tempo livre dentro de casa assistindo a desenhos animados. Ia para a escola sozinho, na sombra do monte Vesúvio, parando primeiro para rezar diante da estátua da Virgem Maria na frente do edifício onde morava.

"Ela era minha protetora" disse ele.

Mas nada e ninguém protegeu-o contra Mura - o professor de religião que, num certo dia em 1989, convidou o então adolescente para ir ao seu pequeno apartamento na Rua Irmãos Grimm após a aula. Lá Diego, hoje com 39 anos, disse que Mura persuadiu-o a beijá-lo. Alguns dias depois, convidado a voltar ao apartamento, sofreu o primeiro do que descreveu como centenas de episódios de abuso sexual que transformaram um menino calmo que sonhava ser piloto num adulto profundamente perturbado.

Depois de finalmente vir à tona em 2009, o caso de Diego foi esquecido. A diocese local transferiu Mura em 2012 para uma escola onde ele tinha acesso regular a crianças de 14 anos. Foi quando Diego, que continua católico, deu um passo decisivo - escreveu diretamente ao papa Francisco.

Seu caso se tornou um dos vários em que o papa interveio pessoalmente para ajudar vítimas de abuso no que o Vaticano qualifica como mais um avanço no sentido de mudanças determinadas pelo papa conhecido por liderar por meio do exemplo. Segundo o Vaticano, o papa ao saber do caso de Diego ordenou uma investigação oficial pela Igreja que poderá finalmente levar à expulsão de Mura. Por causa da lentidão dos processos legais na Igreja, poderá levar um ano ou mais para se estabelecer sua culpa ou inocência.

Mas mesmo com Francisco adotando um tom mais enérgico num assunto que prejudicou severamente a reputação da Igreja Católica antes da sua nomeação, às vezes ele se vê nadando contra a corrente. Nas dioceses locais da Itália às Filipinas, Francisco vem enfrentando uma burocracia tenaz e letárgica que ainda comete alguns dos mesmos erros graves do passado.

É isto que Francisco vem tentando mudar, dizem as autoridades, e alguns casos exemplificam esse esforço mais do o de Diego. Mura não quis fazer comentários por meio de um representante da diocese de Nápoles, que também recusou-se a dizer se o padre negou as acusações contra ele. 

"Eu diria que o papa é muito sensível a todos os tipos de sofrimento e certamente está enviando uma mensagem indireta" nesta situação envolvendo Diego, disse uma autoridade do Vaticano. "Esses casos não serão tolerados".

Mancha. Antes da ascensão do primeiro papa latino-americano há dois anos, nenhum assunto prejudicou mais a Igreja Católica do que o abuso sexual por parte de padres. Em 2010 - anos após uma onda de escândalos que atingiram a igreja nos Estados Unidos, novas revelações de abuso ocorreram em países incluindo Alemanha, Holanda e Malta. As consequências desses fatos, alguns afirmam, teriam levado à aposentadoria inesperada do papa Bento XVI em 2013.

Chegou então o papa Francisco, clérigo argentino não conhecido por se dedicar ao assunto. Como cardeal e antes disto arcebispo de Buenos Aires ele rejeitou um pedido para se reunir com pelo menos um grupo de vítimas e não teria atendido apelos do Vaticano para estabelecer as diretrizes para tratar das acusações de abuso.

Mas com o surgimento de muitos casos, incluindo de homossexualismo, Francisco, com 78 anos, parece ter mudado radicalmente como Papa. No ano passado ele escreveu aos bispos de todo o globo exigindo tolerância zero em casos de abuso. Criou uma comissão encarregada de amplas reformas nas leis da Igreja, com mudanças que incluem penalidades mais severas para bispos que deixarem de tratar com rapidez as alegações ou reportar casos informados para as autoridades civis.

Em setembro, o Vaticano colocou seu antigo embaixador na República Dominicana, Josef Wesolowski sob prisão domiciliar e iniciou seus primeiros processos criminais contra autoridade da igreja acusado de abusar de menores. No ano passado, pela primeira vez a igreja deu um instantâneo da sua condução interna de casos de abuso, dizendo que entre 2004 e 2014, 848 padres foram expulsos e outros 2.575 receberam sentenças menores.

Num punhado de casos, dizem as autoridades do Vaticano, o papa foi mais longe - interferindo pessoalmente. O papa conversou com um homem de Granada, na Espanha, que escrevera para ele falando de abusos que sofreu quando era coroinha da igreja, incluindo retiros de sexo numa vila na colina envolvendo 10 padres. Em novembro o papa Francisco disse ter ordenado ao bispo local para cooperar no caso.

"A verdade é a verdade e não devemos ocultá-la", disse o pontífice a jornalistas.

Peso das ações papais. Numa organização religiosa considerada uma espécie de ditadura benigna, as ações pessoais do papa têm grande peso. Mas em alguns casos notáveis o Vaticano ainda relutou em cooperar plenamente com as autoridades civis e alguns grupos de vítimas continuam desaprovando fortemente a maneira como o papa vem lidando com os casos de abuso sexual.

Francisco, como ocorreu com Bento XVI antes, não tem agido de modo decisivo contra bispos acusados de ocultar episódios de abusos em sua dioceses, e tem adotado soluções consideradas mais de fachada, eles afirmam. E citam casos alarmantes, por exemplo, em que dioceses locais deixaram padres abusivos no ministério. O grupo ativista BishopAccounbability.org recentemente escreveu uma carta às autoridades superiores da igreja, perfilando vários clérigos acusados nas Filipinas que, segundo o grupo, ainda têm acesso fácil as crianças. Somente o simbolismo, insistem os críticos, não resolverá a questão.

"Envolver-se em um ou dois casos é uma estratégia de relações públicas, não uma solução, disse David Clohessy, presidente do grupo SNPA de sobreviventes de abusos nos Estados Unidos.

Mas para aqueles em cujos casos o papa se envolveu, é quase um milagre.

"Você sabe o que é, depois de tentar ser ouvido, ter o papa, finalmente o próprio papa, a escutá-lo? indagou Diego em seu apartamento em Nápoles, cercado pela esposa e o filho mais velho. Para proteger sua identidade, ele utilizou o pseudônimo, Diego, em homenagem ao seu ídolo Diego Maradona,

"Finalmente senti que podia caminhar sem ter medo". Se conseguir ver o papa hoje, eu lhe direi 'obrigado, muito obrigado por sua atenção".

História. Numa manhã de outubro de 2009 Diego estava na cidade de Caserta, cerca de 50 quilômetros ao norte de Nápoles, trabalhando na última de uma série de empregos que tentou durante anos. Ele perdera o último emprego alguns meses antes depois de ameaçar um colega de trabalho em um dos seus ímpetos agressivos que às vezes o arrebatam durante toda a sua vida adulta.

Ele achou que havia superado o trauma da infância mas naquele dia de outubro "tudo me afetava", disse ele. E repentinamente sofreu uma síncope no trabalho.

Estudos feitos no hospital, segundo psiquiatra de Diego Alfonso Rossi, não encontraram nenhuma razão para suas dores no abdômen e o vômito frequente. Mas as sessões de terapia revelaram a supressão de quatro anos de alegado abuso sexual por um homem que atormentou Diego durante toda a sua vida adulta.

Nas sessões de terapia com Rossi, Diego reviveu aqueles anos em todos os detalhes. Lembrou-se do divã cinza que, segundo ele, o padre usava para bloquear a porta do seu quarto antes do ato sexual. O padre frequentemente o fazia assistir a filmes de horror, primeiro "assim eu ficava apavorado e mais obediente".

Diego abandonou a escola 18 meses depois que os abusos começaram, mas continuou a visitar o padre. "Era como um feitiço. Não conseguia me afastar e não podia contar a ninguém.", disse Diego que toma cinco remédios por dia para depressão e ansiedade. "Ele era um padre. Não podia dizer não".

O seu contato sexual acabou quando ele completou 17 anos. Mas foi substituído por um outro adolescente.

Os pais de Diego, que nada sabiam da situação na época, insistiram para Mura realizar o casamento do filho. Fotos revelam o rosto taciturno do noivo quando e ela noiva posaram ao lado de Mura, em roupas brancas gloriosas. Diego sentiu a mesma frustração quando o mesmo padre batizou dois dos seus três filhos. Diego passou por tudo isto sem dizer nada, paralisado pela vergonha.

Quando contou a verdade a seus pais logo após ser hospitalizado, sua mãe se culpou. Anos antes os pais de Diego sempre recebiam o padre em sua casa para jantar, orgulhosos com a atenção para com seu filho por uma figura respeitada na igreja.

"Como não notei?", ela indagou. "Meu filho costumava se refugiar em seu quarto, fechar a porta e nunca sair. O padre Mura me dizia que, "é por causa da idade. Isto acontece com todos os meninos'. E acreditava nele, hipnotizada. Não consigo entender".

Num encontro dramático em 2010, Diego se defrontou com Mura na igreja em Nápoles onde ele ainda era padre. Um vídeo mostra Mura em seu escritório, uma cópia dos famosos querubins de Rafael sobre sua mesa, nunca admitindo diretamente - tampouco negando - as acusações lançadas contra ele por Diego. Mura é ouvido procurando dissuadir Diego de procurar um terapeuta ou "falar com as pessoas".

"Confie e Jesus. Ele é o maior psiquiatra" disse o padre.

Com ajuda da mãe Diego escreveu uma carta à mão para a diocese de Nápoles em maio de 2010, pedindo uma audiência para discutir o assunto. Enviou em seguida e-mails, mas jamais foi contatado. Um ano depois o psiquiatra Rossi escreveu pessoalmente para a diocese e finalmente conseguiu um encontro entre Diego e um bispo local em outubro de 2011. Diego disse ter informado em detalhes o bispo sobre a história de abusos de Mura, mas nenhuma medida foi tomada para responsabilizar o padre.

Em maio de 2012 Mura foi transferido da sua paróquia para uma escola vizinha e, de acordo com autoridades da escola, trouxe consigo uma carta da diocese atestando oficialmente que ele estava "qualificado" para trabalhar como professor. Ali ele trabalhou durante cerca de um ano, antes de ser transferido para "um lugar para padres como ele" segundo disse um representante da diocese.

Debaixo do tapete. Diego disse sentir que a dioceses estava efetivamente jogando suas acusações para debaixo do tapete. Foi à polícia local que se mostrou atenciosa, mas incapacitada de dar prosseguimento ao caso face aos prazos da lei de prescrição. Finalmente ele escreveu ao papa, em quatro de março do ano passado. Vinte dias depois uma resposta chegou, dizendo que Francisco oraria por ele e, mais importante, seu caso seria "levado à atenção da autoridade competente".

Em novembro Diego recebeu uma telefonema da dioceses dizendo que uma investigação oficial fora iniciada. Mas durante uma reunião com uma autoridade da diocese em dezembro, ele pergunto por que uma investigação fora de repente iniciada. Segundo Diego, o investigador respondeu dizendo "Por causa do Santo Padre".

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