Angelo Cardoni/EFE
Angelo Cardoni/EFE

Papa aprova união civil entre pessoas do mesmo sexo: 'Eles são filhos de Deus'

Em uma entrevista para o documentário Francesco, pontífice aborda a questão e acredita que todos têm direito a ter uma família

Redação, O Estado de S.Paulo

21 de outubro de 2020 | 12h43
Atualizado 21 de outubro de 2020 | 22h05

ROMA - O Papa Francisco reconheceu em um documentário apresentado nesta quarta-feira, 21, no Festival de Cinema de Roma que as pessoas homossexuais devem ser protegidas por leis de união civil. "Os homossexuais têm o direito de ter uma família. Eles são filhos de Deus", disse Francisco em uma de suas entrevistas para o filme. "O que precisamos ter é uma lei de união civil, pois dessa maneira eles estarão legalmente protegidos."

O apoio do papa à união civil de homossexuais apareceu na metade do filme, que investiga as questões que mais preocupam Francisco, como meio ambiente, pobreza, migração, desigualdade racial e de renda, e aqueles mais afetados pela discriminação. O documentário Francesco foi dirigido pelo americano de origem russa Evgeny Afineevsky.

O filme de duas horas, aborda os sete anos de pontificado e as viagens de Francisco, com depoimentos e entrevistas. A mudança de agora não é uma surpresa na Cúria, mas sim para a história do papado. Esta é a primeira vez que um papa se manifesta dessa forma sobre a união civil – ainda que temas como os direitos decorrentes dela, como o direito à adoção, não estejam claros.

O papa já havia se manifestado contra a discriminação de gays. Após sua nomeação, em 2013, Francisco adotou um tom mais tolerante em relação aos homossexuais, lançando sua famosa frase "Quem sou eu para julgar?" e recebendo casais homossexuais em várias ocasiões no Vaticano

No documentário, Francisco se refere ao caso de Andrea Rubera, que é pai de três meninos e é casado com um homem. Rubera mandou uma carta ao papa na qual explicava querer educar os filhos na fé católica, mas afirmou que não sabia como seria recebido em sua paróquia. Francisco telefonou para o pai e o aconselhou a procurar a paróquia, tendo consciência, porém, que poderia encontrar resistência. E assim fez o pai.

Outro depoimento apresentado pelo filme é o do chileno Juan Carlos Cruz, vítima e ativista contra os abusos sexuais, que acompanhou nesta quarta-feira o diretor na exibição do filme em Roma. "Quando conheci o papa Francisco, ele me disse que sentia muito pelo ocorrido. Juan, foi Deus quem te fez gay e em todo caso te ama. Deus te ama e o papa também te ama", conta Cruz no filme.

Em entrevista a canais americanos, o cineasta Evgeny Afineevsky disse que tentou apresentar o papa como o viu, que o documentário pode não agradar a todos os católicos e que o filme não é sobre o apelo do papa por uniões civis, mas "sobre outras questões globais".

Segundo ele, o trabalho com o Vaticano para a produção do filme começou ainda em 2018, com acesso sem precedentes ao pontífice. As filmagens foram concluídas em junho, em meio a bloqueios pelo coronavírus na Itália. "Me reuni com ele umas cinco vezes, sempre em função da sua agenda, tivemos também duas entrevistas de câmera", disse o diretor. Não fica claro exatamente em que momento Francisco defende as uniões civis para homossexuais. 

Na quinta-feira, Afineevsky receberá, nos Jardins do Vaticano, o Prêmio Kineo Movie for Humanity, que reconhece cineastas que apresentam questões sociais e humanitárias por meio do cinema. O prêmio foi criado em 2002 pelo Ministério da Cultura da Itália.

Declaração do papa é elogiada

A declaração foi considerada um "um movimento muito positivo" pelo Secretário-Geral das Nações Unidas, Antonio Guterres, que é católico devoto. "O secretário-geral tem dito com veemência contra a homofobia, em favor dos direitos LGBTQ, que as pessoas deveriam nunca ser perseguidas ou discriminadas em função de quem elas amam", disse a porta-voz do secretário.

Jesuíta que ajudou a construir pontes para os gays na Igreja, o padre James Martin elogiou as observações do pontífice como "um grande passo adiante no apoio da Igreja à comunidade LGBT". "O pronunciamento do papa em favor das uniões civis também é uma mensagem forte para lugares onde a Igreja se opôs a essas leis", disse Martin em um comunicado.

Varias organizações em todo o mundo de defesa dos homossexuais elogiaram as palavras do papa.  "Que o papa esteja a favor das uniões civis é uma notícia revolucionária para a doutrina da Igreja. Apoiamos os vários católicos gays e lésbicas diante de um passo histórico de tal magnitude", escreveu em um comunicado a organização italiana GayLib.

A Associação Internacional de Gays, Lésbicas, Bissexuais, Trans e pessoas Intersexo (Ilga) afirmou em um comunicado que as palavras do papa "provavelmente ressoarão em muitas pessoas em nossas comunidades" e fez um apelo para que mais líderes religiosos pressionem por respeito.

Segundo dados de  2018 da Ilga, as relações homossexuais são consideradas crime em 70 países. No Brasil, a união civil entre pessoas do mesmo sexo foi reconhecida pelo Supremo Tribunal Federal (STF) em 2011.

Brasília tem novo arcebispo

Em meio às repercussões de sua fala sobre a união civil entre pessoas do mesmo sexo, o papa Francisco nomeou nesta quarta-feira, 21, Dom Paulo Cezar Costa como arcebispo de Brasília, transferindo-o da Diocese de São Carlos (SP).

Em nota, o novo arcebispo de Brasília disse que entra na vida da nova Igreja “com muito respeito pela sua caminhada, pelo trabalho dos meus predecessores, principalmente o Cardeal Sérgio da Rocha, que doou a vida por vários anos nesta Igreja".

Dom Paulo Cezar foi nomeado pelo Papa Bento XVI como Bispo-Auxiliar da Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro em 2010. Seis anos depois, foi nomeado 7º bispo da Diocese de São Carlos pelo Papa Francisco.

A diocese de Barreiras (BA) também tem novo bispo: Dom Moacir Silva Arantes, até então auxiliar da arquidiocese metropolitana de Goiânia./ COM AP, EFE e AFP

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