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Em seu discurso, Francisco garantiu que a Igreja se compromete a aplicar estratégias de organizações internacionais para erradicar a pedofilia EFE/EPA/Giuseppe Lami

Papa compara abuso sexual de menores ao sacrifício de humanos

Igreja vai publicar manual com deveres de bispos nessas situações; acobertar os crimes é tão cruel quanto o estupro, alerta arcebispo

Agências internacionais, O Estado de S.Paulo

24 de fevereiro de 2019 | 09h39

O papa Francisco comparou a "praga" dos abusos sexuais de crianças e adolescentes às práticas religiosas do passado de oferecer humanos em sacrifício, no encerramento no domingo, 24, da reunião histórica sobre o tema no Vaticano, com 114 líderes de conferências episcopais do mundo. "Vamos tomar todas as medidas possíveis para que esses crimes não se repitam. Que a Igreja volte a ser confiável", declarou.

A Igreja Católica também anunciou a intenção de publicar documento papal e um guia sobre as funções e deveres de bispos em relação às denúncias de abuso, além de criar forças-tarefa que ajudem as dioceses com esses casos. Nas últimas décadas, a Igreja Católica tem sido pressionada por uma série de escândalos sexuais dentro do clero. Em 2018, por exemplo, todos os bispos do Chile renunciaram após denúncias de abuso virem à tona

"Gostaria de reafirmar com clareza: se na Igreja for descoberto um só caso de abuso - que em si mesmo já representa uma monstruosidade -, este caso será enfrentado com a máxima seriedade", disse o pontífice. O abusador "é instrumento de Satanás", segundo Francisco. "Não se pode compreender o fenômeno dos abusos contra menores sem levar em conta o poder, o quanto são sempre a consequência do abuso de poder, aproveitando a inferioridade do indefeso abusado."

Conforme a Santa Sé, haverá um novo Motu Proprio, documento do papa, com o objetivo de “reforçar a prevenção e a luta contra os abusos na Cúria romana e no Vaticano”, que acompanhará uma nova lei para a Igreja. O manual será publicado pela Conferência para a Doutrina da Fé e terá formato de perguntas e respostas, dirigido aos bispos. 

Já a ideia de força-tarefa envolve mandar equipes de especialistas a dioceses que tenham menos recursos para prevenir ou combater o problema. Outras propostas em estudo são rever o segredo pontifício para casos de abuso sexual e criar um departamento na Igreja específico para denúncias desse tipo entre os sacerdotes. 

Casos escondidos. Em outro posicionamento importante, a Igreja condenou a prática de encobrir delitos. "Por décadas, temos nos concentrado em crimes - insistentes -, mas agora chegamos à conclusão que o acobertamento é do mesmo modo ultrajante", declarou o arcebispo de Malta, Charles Scicluna, da Comissão Organizadora. Na semana passada, arquidioceses no México, nos Estados Unidos e na Polônia divulgaram listas de sacerdotes investigados. 

No sábado, 23, o cardeal alemão Reinhard Marx admitiu que a Igreja destruiu materiais sobre estupradores. “Os arquivos que documentaram esses atos terríveis e indicam os nomes dos responsáveis foram destruídos, ou até sequer foram produzidos”, declarou o presidente da Conferência Episcopal Alemã.

"Procedimentos e trâmites definidos para esclarecer os delitos foram deliberadamente ignorados e até anulados", disse ele, que cobrou divulgação do total de casos analisados por tribunais eclesiásticos. Parte das vítimas, no entanto, reclamou do tom final da conferência. Francesco Zanardi, presidente da Rede de Vítimas da Itália, reclamou da falta de menção a "procedimentos concretos e demissões de bispos". 

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Análise: Sinalização é de que ninguém é maior do que a lei canônica

Francisco quer firmar uma Igreja cuja prioridade são os frágeis e pobres, e não aquela que acoberta ou justifica desvios, como foi no passado em relação a esse problema

Fernando Altemeyer Júnior*, O Estado de S.Paulo

24 de fevereiro de 2019 | 23h09

Após o encontro, é possível ressaltar pelo menos três indicações expressivas da Igreja (Católica). A primeira delas é a expulsão neste mês do ex-cardeal de Washington, Theodore McCarrick, acusado de abuso sexual de crianças. Sinaliza que ninguém é maior que a lei canônica – do padre da aldeia até o alto escalão – e que o corporativismo não vai pesar. Isso harmoniza a isonomia e dá credibilidade. 

Outro ponto importante, uma busca pessoal do papa Francisco, é fazer com que a mudança não seja só de um episcopado ou de cima para baixo. Por isso, chamou representantes de todo o mundo. Francisco quer firmar uma Igreja cuja prioridade são os frágeis e pobres, e não aquela que acoberta ou justifica desvios, como foi no passado em relação a esse problema.

O terceiro destaque é associar o abuso a Satanás, o que é forte e inédito no discurso teológico. No lugar de praticar o bem, o abusador serve ao demônio, e não a Deus. Deve perder a função clerical. Além disso, Francisco promete ações legais sobre como punir, para não ficar apenas na intenção. A transformação é lenta, mas muito importante. 

* Professor de ciências da religião da PUC-SP

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