Papa culpa ‘ganância’ pela fome no mundo

Papa culpa ‘ganância’ pela fome no mundo

Francisco destaca que não falta comida, mas luta contra desnutrição é prejudicada por ‘prioridades de mercado’; ele cobrou justiça

O Estado de S. Paulo

20 de novembro de 2014 | 22h39

ROMA - O papa Francisco ligou nesta quinta-feira, 20, os casos de fome no mundo à ganância e a especulação com alimentos. Falando pela primeira vez em uma conferência da Organização das Nações Unidas (ONU) sobre nutrição, em Roma, o chefe da Igreja Católica pediu aos países desenvolvidos que dividam sua riqueza e repudiou os desperdícios, o consumo excessivo e a distribuição desigual de alimentos.

“Hoje se fala muito de direitos, esquecendo com frequência dos deveres. Talvez tenhamos nos preocupado muito pouco com os que passam fome”, afirmou inicialmente o pontífice em seu discurso. “É doloroso ver que a luta contra a fome e a desnutrição é prejudicada por prioridades de mercado, pelo primado do lucro, que reduziu os gêneros alimentícios a uma commodity como outra qualquer, sujeita à especulação, até de natureza financeira”, continuou Francisco, falando aos delegados de 170 países.


“Os famintos continuam nas esquinas das ruas e pedem para ser reconhecidos como cidadãos, para receber uma dieta saudável. Precisam de dignidade, não de esmola”, declarou o papa na sede da Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO, na sigla em inglês) em Roma.

Para o secretário-geral da organização, o brasileiro José Graziano da Silva, a visita do papa argentino à agência da ONU foi um fato “histórico”. Vestido com a tradicional batina blanca, o religioso foi interrompido diversas vezes por aplausos e recordou que, 22 anos depois da primeira cúpula contra a fome da FAO, “o paradoxo da abundância” continua vigente. “Há comida para todos, mas nem todos podem comer, enquanto o desperdício, o descarte, o consumo excessivo e o uso de alimentos para outros fins estão diante de nossos olhos.”

“As pessoas e os povos exigem que se ponha em prática a Justiça, não só a legal, mas a distributiva”, afirmou o pontífice, depois de destacar que “a primeira preocupação deve ser com a própria pessoa, com os que necessitam de alimento diário e lutam apenas por sua sobrevivência.” O primeiro chefe católico a vir da América Latina, uma das maiores regiões agrícolas do mundo, ainda ressaltou que “nenhuma forma de pressão política ou econômica que se sirva da oferta de alimentos pode ser aceitável.”

Irmã e mãe Terra. O papa ainda falou de dois desafios para a sociedade moderna: a defesa do planeta e a falta de solidariedade. “Nossas sociedades se caracterizam por um crescente individualismo e pela divisão. Estamos privando os mais carentes de uma vida digna e provocando revoltas contra as instituições. Quando falta solidariedade em um país, todos se ressentem. Tenho a suspeita de que se quer remover dos dicionários a solidariedade,”

Aos delegados dos 170 países, ainda fez um convite para que “se cuide da irmã e mãe Terra, até mesmo para evitar a autodestruição”. “Deus sempre perdoa; os homens, às vezes perdoam. A Terra nunca perdoa”, alertou o papa, reiterando a necessidade de se rever o discurso em favor da natureza - o pontífice, aliás, trabalha em uma encíclica a respeito. / COM AGÊNCIAS INTERNACIONAIS

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