Luca Zennaro/REUTERS
Luca Zennaro/REUTERS

Papa reconhece abusos sexuais de padres e bispos contra freiras

Pontífice admitiu pela 1ª vez problema na Igreja e relatou que seu antecessor teve de fechar ordem feminina que tinha escravidão sexual

Redação, O Estado de S. Paulo

05 de fevereiro de 2019 | 18h41

O papa Francisco, cujo pontificado tem sido marcado por esforços para pôr fim a uma crise global de abuso sexual de crianças por clérigos católicos, disse nesta terça-feira, 5, estar comprometido a acabar com o abuso de freiras por parte de bispos, alguns dos quais têm usado as mulheres como escravas sexuais.

Francisco fez os comentários a bordo do avião papal, retornando de Abu Dhabi, em resposta à pergunta de um repórter sobre um artigo publicado na semana passada em uma revista mensal do jornal L’Osservatore Romano. O assunto era justamente o abuso de freiras na Igreja Católica.

Recentemente, cada vez mais freiras, encorajadas pelo movimento Me Too, têm denunciado abusos que sofreram nas mãos de padres e bispos. No ano passado, a União Internacional de Superioras Gerais, que representa mais de 500 mil freiras católicas, pediu que suas integrantes denunciassem casos de abuso. “É verdade… há padres e até bispos que fizeram isso. Eu acho que ainda está acontecendo, porque uma coisa não acaba simplesmente porque nos tornamos cientes dela”, disse Francisco.

“Nós temos trabalhado nisso há bastante tempo. Nós temos suspendido alguns padres por isso”, disse, acrescentando que o Vaticano está no processo de fechar uma ordem religiosa feminina por casos de abuso sexual e corrupção. Francisco não identificou a ordem. “Eu não posso dizer ‘Isso não acontece na minha casa’. É verdade. Nós precisamos fazer mais? Sim. Estamos dispostos? Sim”, disse.

O pontífice lamentou os ataques a mulheres e disse que a humanidade não amadureceu e ainda considera a mulher como “um ser de segunda classe”. “É uma coisa que vem de muito tempo.”

Francisco disse que o papa emérito Bento XVI acabou com uma ordem religiosa de mulheres pouco depois de ser eleito papa em 2005 “porque a escravidão havia se tornado parte (da ordem), até a escravidão sexual por parte de padres e do fundador”. O papa não identificou o grupo, mas o porta-voz do Vaticano, Alessandro Gisotti, disse que era uma ordem francesa.

Antes de se tornar papa, o cardeal Joseph Ratzinger comandava a Congregação para a Doutrina da Fé, o departamento do Vaticano que passou a investigar casos de abuso sexual, durante o pontificado de João Paulo II. “O então cardeal Ratzinger queria investigar a ordem religiosa onde mulheres estavam sendo abusadas, mas foi impedido.” Francisco evitou dizer quem interrompeu o inquérito. “Após se tornar papa, ele reabriu a investigação e fechou a ordem.”

Encontro

Entre os dias 21 e 24, acontece no Vaticano um encontro do papa com os presidentes das conferências episcopais – incluindo a brasileira CNBB –, para abordar o abuso sexual. “Se rezará, haverá alguns testemunhos e alguma liturgia penitencial para pedir perdão por toda a Igreja”, adiantou, na semana passada, destacando a necessidade de uma “catequese” sobre o tema aos bispos. “Recebo regularmente pessoas vítimas de abuso. Recordo de uma pessoa: 40 anos sem poder rezar. É terrível.” / COM AGÊNCIAS INTERNACIONAIS


 

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