Papo de avoado

 Ao reclamar, na semana passada, da falta de uma palavra em português para designar a condição de avô, confessei a inveja que sinto dos hispânicos, com seu abuelazgo e sua abuelidad. Pouco importa se não estiverem dicionarizadas. Quem as utiliza está em melhores condições do que nós, que nem informalmente dizemos "avoíce", "avoidade" ou similar.

HUMBERTO WERNECK, O Estado de S. Paulo

15 Janeiro 2012 | 12h43

Pois bem, eis que nos últimos dias o feio sentimento da inveja se estendeu também aos usuários do inglês - e com muito mais razão: eles não só dispõem de grandparenthood, soprou minha amiga Mariângela, como esta palavra está no dicionário, no Webster, pelo menos, para significar "the state of being grandparent". Minha inveja passou a incluir também os alemães: o Achim Robert informou que seus compatriotas são ainda mais afortunados que os anglo-saxões, pois em sua língua existem diferentes palavras para a condição de avô e de avó, respectivamente Grossvaterschaft e Grossmutterschaft. Em compensação, saboreei um contentamento mesquinho ao saber pela Aparecida, tradutora de truz, que também na língua russa inexistem vocábulos para designar o estado do ded e da bábuchka.

Se você me acompanhou até aqui, já percebeu em que meandros linguísticos vim parar. E não só eu, pois minha reclamação mobilizou um bocado de gente. Lá de Minas, a Maria Regina declarou voto em "avoíce", uma das alternativas que propus na semana passada. "Achei até simpático", disse ela. Do Rio, a Carmen sugeriu "nonada", na tentativa de injetar sentido novo na palavra que abre o Grande Sertão: Veredas e que no dicionário é apresentada como ninharia, insignificância. Ela me explicou que o seu "nonada" é tudo - longe de evocar pequenez, realça a imponência do nonno e da nonna, os avós italianos. O Sergio Augusto não perdeu a oportunidade de pôr sal na conversa: "Que tal chamarmos de ‘nonada’ a mulher que não conseguiu ser avó?"

A Nísia, por sua vez, com a experiência de quem já contabiliza três netos e tem um quarto a caminho, trouxe duas contribuições: "avoência", que a seu ver "combina com consciência, prudência e paciência"; e, melhor ainda, "avoescência", por analogia com adolescência. Foi o que bastou para que a Carmen renunciasse a "nonada" e viesse arredondar a proposta da Nísia com "avoessência", "a essência do avô e da avó".

Já o colega Antônio Graça, sem arriscar neologismos, me presenteou com a história de um senhor que ele costumava ver na Biblioteca Mário de Andrade, "copiando à mão, diligentemente, em papel almaço pautado, verbetes de enciclopédias". Intrigado, o Antônio quis saber mais - e descobriu que "aquele senhor estava fazendo uma minienciclopédia para a neta".

De Curitiba, o cronista, contista e músico Luís Henrique despachou um punhado de criativas bolações, a começar por "vovolidade", "aqueles dengos abobalhados de vovô e da vovó". Embora me caiba a involuntária carapuça, o adjetivo não me ofende; mas eu teria preferido "avoado", na acepção que a Mariza foi catar no léxico do Guimarães Rosa: "Ele usa essa palavra no sentido de ‘alevantado’, ‘elevado’, ‘valorizado’", debulhou a jubilosa recém-avó, das alturas em que ultimamente foi parar. É isso mesmo, digo eu, que de uns meses para cá também venho levitando: se já adorava ser pai, experimento agora as delícias disso que, na falta de nome preciso, tento descrever como paternidade desossada. O risco, estou sabendo, é me afogar no mel.

Sugeriu mais o Luís. Depois de incursionar sem êxito pelo idioma polonês, o autor de Nós passaremos em branco recorreu ao inglês e ao francês para criar "grã-paternidade" e "grã-maternidade". Taí, gostei. Como gostei de "tamocidade", que o mesmo Luís construiu a partir de língua de índio brasileiro. "Você sabia que ‘tamoio’ quer dizer avô, ou velho?", perguntou ele. "Foi o Anchieta quem disse." À mesma raiz desceu a Eliana, depois de torcer o nariz para "avoenguice" ("muito antigo", avalia) e para o latinismo "avusitas" ("pedante demais"). Justo "avoenguice", a preferida de outra amiga, a Wanda. A Eliana acabou esbarrando em "Ava reko tamõi", condição de avô em guarani. Mas quem vai entender?, admitiu.

Um tanto de gente nas imediações do cronista, a maioria mulheres, tem palpitado sobre a grave questão. Só faltou a Glorinha. Faltou? Você pode achar que eu, no avoamento de que estou acometido, dei de ver e ouvir coisa onde não tem - mas, outro dia, um daqueles arrulhos com que ela se manifesta sobre tudo e todos me soou assim: "Não acha que já é hora de mudar de papo, cara?"

Assim seja.

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