Para Benedita, traficantes reagem ao combate ao crime no Rio

A governadora Benedita da Silva (PT) disse hoje que a ordem de traficantes para fechar o comércio na Região Metropolitana do Rio na segunda-feira foi uma reação dos bandidos ao combate ao crime realizado em seu governo. "Se nós estamos combatendo, eles estão reagindo. Se eles têm a estratégia deles, nós temos a nossa", afirmou Benedita, que havia insinuado que o pânico gerado na população teria sido provocado por motivação política.Apesar de ter tido acesso a gravações de conversas do traficante Marcos Antônio Tavares, o Marquinho Niterói, em que ele orquestrava o fechamento do comércio, e de haver recebido denúncias no domingo dando conta do que aconteceria no dia seguinte, a secretaria de Segurança Pública não acreditava que a ameaça se tornaria realidade na segunda-feira. O secretário Roberto Aguiar, que recebeu a fita no dia 15, afirmou hoje que a polícia isolou o bandido no Batalhão de Choque da PM para impedir que ele articulasse a ação e cercou as favelas dominadas pelo Comando Vermelho. O governo passou a acreditar, então, que o movimento fora desmobilizado.Aguiar acrescentou que, nos dias seguintes à gravação, o serviço de inteligência da polícia foi acionado para impedir saques em áreas carentes e a circulação de bondes de traficantes. Na fita, entregue a ele no dia 15, o bandido fala sobre uma ação que aconteceria "entre amanhã ou depois", o que levou Aguiar a crer que o episódio, ocorrido duas semanas mais tarde, não tem ligação com o telefonema. Ele explicou que não divulgou o teor da conversa de Niterói antes para não quebrar o sigilo necessário às operações da polícia e também para preservar os promotores do Ministério Público responsáveis pela interceptação telefônica. "Eu nunca vou criar pânico, até que os informes sejam efetivamente investigados", disse ainda. Para o chefe de Polícia Civil, Zaqueu Teixeira, a gravação não encerra a investigação sobre a origem da ordem para parar o Rio. Ele afirmou que existe uma articulação política incentivando o tráfico de drogas. "Não é só ação do tráfico. Se a gente observa os panfletos, vê que não tem nada a ver com a linguagem do tráfico. Há uma orquestração por trás disso, estão aproveitando o momento político. O tráfico entra junto disseminando as mensagens através de seus pombos correios." Marquinho NiteróiO traficante Marcos Antônio da Silva Tavares, o Marquinho Niterói, de 38 anos, flagrado pela Polícia Federal em conversas telefônicas, avisando que o tráfico preparava uma ação para fechar o comércio, é um atacadista que movimenta uma tonelada de cocaína por mês, conforme ele mesmo conta em outra escuta telefônica feita pela PF. Condenado a 12 anos por tráfico e associação para o tráfico, ele responde ainda a outros dois processos.Marquinho pertence a uma família de classe média de Niterói, no Grande Rio, e começou a atuar como fornecedor de drogas para o Niterói, São Gonçalo e interior do Estado no início dos anos 90. Ele utilizava três empresas para lavar o dinheiro de sua quadrilha, quando foi preso numa fazenda do Espírito Santo, em novembro de 1999, pela PF. O local era utilizado como esconderijo dele e de outros traficantes. Até então, a polícia não tinha conhecimento de sua importância. "Era um anônimo, um desconhecido da Justiça que transitava em todas as facções", explicou na época da prisão o então superintendente da PF no Rio, delegado Pedro Bervanger.Niterói teria conquistado a privilegiada posição de fornecedor de facções rivais quando cumpriu parte da pena por tráfico no Presídio Ary Franco, em Água Santa, onde teria tido contato com alguns líderes dessas organizações. A chefe do Setor de Investigações da Delegacia de Repressão a Entorpecentes, Marina Maggessi, não acredita que Niterói tenha força suficiente para ordenar o fechamento do comércio em toda a região metropolitana do Rio. "Ele pode ter mandado no pessoal de São Gonçalo. A coisa começou por lá, onde até ônibus foram queimados. O resto é bola de neve, boato", afirmou. Marina garante que o traficante Luiz Fernando da Costa, o Fernandinho Beira-Mar, não comandou a ação. "Eu conversei com o Beira-Mar e ele negou. Ele assumiria porque gosta de mostrar poder", disse.Segundo os registros do Departamento do Sistema Penitenciário (Desipe), Marquinho Niterói ingressou no Presídio Ary Franco em novembro de 1994, condenado por tráfico. Ele saiu em liberdade condicional em fevereiro de 1999, mas foi preso em novembro daquele ano, pela Polícia Federal. Niterói voltou ao Ary Franco, mas logo foi transferido para Bangu 1, depois que a polícia identificou a importância dele.Marquinho Niterói deixou o presídio de segurança máxima dias depois da rebelião de 11 de setembro, quando quatro traficantes foram mortos em Bangu 1. Depois de gravar a conversa em que anunciava o fechamento do comércio, a polícia apreendeu celulares e drogas na cela do traficante. Hoje, ele divide um cubículo com Elias Pereira da Silva, o Elias Maluco, no Batalhão de Choque da PM.

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