Nilton Fukuda/AE-5/5/2008
Nilton Fukuda/AE-5/5/2008

Para cacique do PSDB, radicais causaram racha

Ex-dirigente, Lobo diz que alertou governador sobre espírito de vingança; Alckmin afirmou que não controla o partido

Julia Duailibi e Gustavo Uribe / AGÊNCIA ESTADO, O Estado de S.Paulo

20 Abril 2011 | 00h00

Um dia após a debandada de seis vereadores do PSDB, líderes do partido apontaram a ação de "radicais" da legenda que inviabilizaram a negociação com os parlamentares, enquanto o governador Geraldo Alckmin alegou não ser papel dele controlar o partido.

"Quem deve dirigir o partido é o partido. Não sou eu, são as bases do partido que se manifestam", afirmou ontem o governador, em resposta a críticas dos vereadores que o acusaram de perder o controle sobre a direção municipal da legenda. Para justificar a saída, os vereadores, ligados ao prefeito Gilberto Kassab (ex-DEM), disseram ter sido "desrespeitados" no processo de composição da nova Executiva, presidida pelo secretário Julio Semeghini (Gestão Pública), ligado a Alckmin.

O ex-presidente municipal do PSDB José Henrique Reis Lobo declarou ontem ter avisado Alckmin de que "radicais" do partido não queriam chegar a um entendimento com os vereadores.

"O governador foi alertado por nós de que era preciso afastar alguns radicais que, movidos pela raiva e pelo espírito de vingança, acabariam provocando a cizânia", disse Lobo, fiador da candidatura Alckmin a prefeito em 2008. "Essa é a crônica do desastre que já estava anunciado. Desde o começo nós alertamos as pessoas ligadas à candidatura de Semeghini que, ou eles seguravam os radicais que apoiavam o seu nome, ou o resultado seria uma cisão que prejudicaria gravemente o PSDB da capital."

Lobo disse que há cerca de 10 dias, num jantar com o secretário estadual José Aníbal (Energia), pediu a intervenção para "trazer à razão" figuras próximas a ele e ao secretário Edson Aparecido (Desenvolvimento Regional) "que visivelmente trabalhavam no sentido de excluir os vereadores". "Ambos não participavam desse espírito revanchista, mas ficava cada vez mais claro que esse grupo estava totalmente fora de controle."

Questionado sobre quem são os integrantes do grupo, Lobo afirmou que são setores ligados aos ex-presidentes municipais do partido João Câmara e o vereador Tião Farias. Segundo o tucano, os dois "se julgam os mais lídimos representantes das bases, mas fazem política de maneira atrasada e primária, como se cada um que diverge fosse um inimigo a ser eliminado".

"Semeghini ficou refém desse pessoal. Embora ele concordasse com algumas propostas que poderiam levar à conciliação, sempre deixou claro que não tinha autonomia para resolver a respeito do que era conversado e que precisava submeter a proposta ao grupo que o apoiava", disse Lobo. Na avaliação dele, as demandas da bancada de vereadores, entre as quais a participação na secretaria-geral do partido, não eram "inaceitáveis".

Lobo discordou da avaliação de que os vereadores deixariam o partido de qualquer jeito. "Ao contrário da nota divulgada anteontem pelo presidente Júlio Semeghini (anteontem), eles queriam um pretexto para permanecer e não para sair. O que houve foi mesmo intolerância e incompreensão de um pessoal que sempre faz política com raiva, movido por espírito belicoso, de revanche, de vingança e que nunca cede aos apelos da razão."

Semeghini alega ter o controle do partido. "O presidente sou eu. Câmara e Farias só tinham dois cargos: a primeira e a segunda vice-presidência. Como estamos reféns de pessoas que têm apenas dois cargos?", reagiu.

Para Aníbal, houve empenho na negociação com os vereadores para se formar uma maioria política. "Eles vieram com esse discurso de que era uma questão de projeto de poder. É uma bobagem", disse o secretário, destacando haver mágoas por parte de tucanos com os vereadores em razão da eleição em 2008, quando os parlamentares apoiaram a reeleição de Kassab contra Alckmin.

Impacto. Os tucanos tentaram minimizar o impacto da saída dos vereadores na eleição de 2012. "Foi um episódio localizado, não terá reflexo na eleição", disse o presidente nacional do PSDB, Sérgio Guerra (PE). Para Lobo, a saída dos vereadores é "uma pena e uma perda", mas não significa que a sigla se inviabilizará na disputa. Alckmin ressaltou que a decisão de deixar a legenda é de "foro íntimo" e que cabe ao PSDB deliberar se reivindicará na Justiça os cargos.

Mas ontem, mais um tucano oficializou sua saída do PSDB. O vereador Souza Santos é o sexto, dos 13 vereadores da bancada tucana, a deixar o partido nos últimos dias. Bispo da Igreja Universal, o parlamentar alegou ser vítima de uma "perseguição odiosa" dos integrantes que comandam o diretório municipal.

Um dia após a debandada, o lugar reservado no plenário para a bancada do PSDB, que era a maior da Casa desde 2001, ficou com cadeiras vazias. O líder do partido, Floriano Pesaro, chorou em seu discurso. Ele considera que a direção do diretório municipal não poderia ter desprezado parlamentares com quase 228 mil votos em 2008. "Vamos trabalhar arduamente para reverter algumas decisões tomadas no calor das brigas."/ COLABOROU DIEGO ZANCHETTA

Razão

GERALDO ALCKMIN

GOVERNADOR DE SÃO PAULO

"Quem deve dirigir o partido é o partido. Não sou eu, são as bases do partido que se manifestam"

JOSÉ HENRIQUE REIS LOBO

EX-PRESIDENTE MUNICIPAL DO PSDB

"Essa é a crônica do desastre que já estava anunciado. Desde o começo nós alertamos as pessoas ligadas à candidatura de Semeghini (Júlio) que, ou eles seguravam os radicais que apoiavam o seu nome ou o resultado seria uma cisão que prejudicaria gravemente o PSDB da capital"

CRONOLOGIA

2008

Alckmin decide concorrer à Prefeitura contra Kassab, então no DEM e ex-vice de José Serra. Os tucanos se dividem entre as candidaturas.

2009

Reeleito, Kassab trabalha para evitar que Alckmin dispute o governo do Estado.

2010

Alckmin se impõe como candidato ao governo, e Kassab emplaca seu aliado de DEM Guilherme Afif como vice.

2011

Kassab e Afif fundam o PSD e anunciam a disposição de ter um candidato a prefeito. Vereadores do PSDB decidem acompanhar o prefeito.

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